Falhas na educação limitam o futuro da população
- Rayssa Farinon

- 17 de jun.
- 4 min de leitura
Dificuldades na alfabetização prejudicam cidadãos e os afastam de melhores oportunidades

Por Rayssa Farinon | Agência Abre Aspas
O Brasil tem cerca de 213 milhões de habitantes, segundo estimativa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025. Apesar de ocupar posição de destaque entre os países mais populosos do mundo, o país ainda convive com uma marca da desigualdade brasileira: milhões de pessoas seguem sem acesso pleno à educação. Dados do Censo Demográfico de 2022 indicam que aproximadamente 7% da população é analfabeta. À primeira vista, esse percentual pode parecer pequeno diante da dimensão do país, mas representa milhões de pessoas privadas de um direito básico.
O analfabetismo não se resume a uma estatística em relatórios governamentais. Ele tem consequências concretas na vida das pessoas. Quem não sabe ler e escrever encontra dificuldades para conseguir emprego, acessar serviços públicos, compreender documentos, acompanhar notícias e exercer sua cidadania. Em uma sociedade em que serviços, informações e oportunidades dependem cada vez mais da leitura e da interpretação, não saber ler significa permanecer em desvantagem.
Por esse motivo, não é possível discutir desenvolvimento econômico, inovação tecnológica e qualificação profissional sem enfrentar o problema da educação básica. Um país que ainda luta contra o analfabetismo não pode tratar a educação como pauta secundária. A educação precisa ocupar o centro das discussões políticas e sociais, pois dela dependem avanços em áreas como saúde, renda e participação social.
UM SISTEMA QUE AINDA FALHA
Frequentemente, a responsabilidade pela permanência escolar é atribuída aos estudantes ou às famílias. Essa leitura, porém, ignora fatores estruturais que interferem na trajetória escolar. O analfabetismo não surge porque as pessoas não desejam aprender. Na maioria das vezes, ele é consequência de desigualdades, dificuldades econômicas e falhas estruturais que impedem milhares de brasileiros de permanecer na escola.
Muitos estudantes abandonam os estudos para trabalhar e contribuir com a renda familiar. Outros enfrentam transporte insuficiente, falta de material escolar, insegurança alimentar e ausência de perspectivas. Nessas situações, a permanência na escola passa a disputar espaço com necessidades imediatas de sobrevivência.
Reportagem da Agência IBGE Notícias, publicada em 2025, aponta que, entre os jovens de 14 a 29 anos do país, 8,7 milhões não haviam completado o ensino médio em 2024, seja por terem abandonado a escola sem concluir essa etapa, seja por nunca a terem frequentado. Em 2023, esse contingente era de 9,3 milhões e, em 2019, chegava a 11,4 milhões.
Os dados indicam um descompasso entre o direito garantido na legislação e as condições concretas de acesso ao ensino. Embora a educação seja assegurada como direito constitucional, nem todos conseguem acessá-la em condições adequadas. Em diversas regiões do país, escolas enfrentam falta de recursos, infraestrutura precária e dificuldades para atender às necessidades dos estudantes. Quando o acesso existe no papel, mas não oferece condições reais de aprendizagem, o direito à educação também é violado.
As consequências dessa falha ultrapassam os anos escolares e acompanham os indivíduos ao longo da vida. Antes de ampliar o acesso a uma segunda língua, é preciso garantir uma base sólida de leitura e escrita. Sem essa base, o acesso a outras formas de conhecimento torna-se ainda mais distante.
O aprendizado de idiomas e as oportunidades
Em uma sociedade globalizada, aprender novas línguas já não é somente um diferencial profissional. O contato com outros idiomas permite acessar conteúdos acadêmicos, oportunidades de trabalho e formas de intercâmbio cultural. No entanto, o acesso a essas possibilidades ainda é desigual.
Embora existam aplicativos, plataformas digitais, cursos on-line e ferramentas de inteligência artificial que facilitam o aprendizado, esses recursos dependem de internet, equipamentos tecnológicos e tempo disponível para estudo. Para muitos brasileiros, essas condições ainda representam privilégio.
Muitas pessoas crescem acreditando que aprender inglês, espanhol ou outro idioma é algo reservado a quem possui recursos financeiros ou teve acesso a uma educação privilegiada. Essa percepção cria barreiras e afasta indivíduos de oportunidades que permanecem restritas a determinados grupos sociais.
A insegurança também pesa nesse percurso. Muitos desistem antes de tentar porque acreditam que não serão capazes de aprender. O medo de errar e de ser julgado impede inúmeras pessoas de buscar novos conhecimentos. A aprendizagem depende da prática contínua e da familiaridade gradual com os erros do processo.
EDUCAÇÃO COMO LIBERDADE
Além das barreiras materiais, o preconceito em torno de diferentes níveis de escolaridade também precisa ser enfrentado. Pessoas analfabetas frequentemente lidam com vergonha e discriminação, fatores que contribuem para seu afastamento dos ambientes educacionais. Esse julgamento não resolve o problema, pelo contrário, aprofunda a exclusão.
Por isso, não se trata de colocar pessoas que falam várias línguas e pessoas que não foram alfabetizadas em extremos opostos, nem de estabelecer uma hierarquia entre elas. A questão central é compreender como o acesso à educação influencia as oportunidades disponíveis para cada indivíduo. Diversos estudos associam maiores níveis de escolaridade a melhores condições de renda, trabalho e participação social.
Um compromisso coletivo
Diante dessa realidade, os indicadores educacionais mostram que a ampliação do acesso e da permanência escolar continua sendo um desafio nacional. Combater o analfabetismo, fortalecer a alfabetização, ampliar programas de permanência escolar e democratizar o acesso ao ensino de idiomas são medidas necessárias para reduzir desigualdades e ampliar oportunidades.
O poder público tem papel central nesse processo, mas escolas, famílias e sociedade também participam da valorização da educação. Ainda assim, cabe ao Estado garantir que nenhuma criança ou jovem precise abandonar os estudos para trabalhar ou sobreviver.
Enquanto milhões de brasileiros continuarem sem acesso adequado à educação, o país continuará reproduzindo desigualdades históricas que limitam o desenvolvimento social e econômico. Falar diferentes idiomas pode abrir portas para o mundo, mas, antes disso, é necessário garantir que todos tenham acesso à alfabetização.
A educação não deve ser tratada como privilégio de poucos. Ela é um direito fundamental e uma condição para a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Quando uma pessoa aprende a ler, escrever e compreender o mundo ao seu redor, amplia sua capacidade de conhecer direitos, acessar serviços e tomar decisões com autonomia.
Mais do que uma habilidade técnica, falar outras línguas amplia o acesso a conhecimentos, redes de contato e oportunidades. Para alcançar esse objetivo, porém, é necessário garantir primeiro que todos tenham acesso à alfabetização e ao ensino de qualidade.



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