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Exaustão digital: o desafio de retomar o controle sobre a dopamina

Com aumento no tempo de tela entre jovens, o “jejum de estímulos” surge como alternativa para combater ansiedade e falta de foco


Automatismo do smartphone e o impacto da dopamina na dificuldade de desconexão dos jovens | Crédito da foto: Kamilly Felipe
Automatismo do smartphone e o impacto da dopamina na dificuldade de desconexão dos jovens | Crédito da foto: Kamilly Felipe

Por Kamilly Felipe | Agência Abre Aspas


O gesto de destravar o smartphone e rolar o feed leva menos de dois segundos. É um movimento quase imperceptível, uma contração muscular mínima do polegar que se repete centenas de vezes ao dia. No entanto, o rastro químico deixado no cérebro a cada deslize é profundo, cumulativo e, para a grande maioria da população, invisível. Para João Paulo Lamboia, um estudante de 18 anos que personifica os dilemas da Geração Z, esse movimento superava o hábito mecânico: era uma função vital, tão essencial quanto o oxigênio que respirava.


"Eu estava no elevador e, do nada, abria o TikTok; só fechava quando percebia que estava ali há muito tempo", relembra João. O vício começou de forma silenciosa. Primeiro, foram as madrugadas em que o sono, momento fundamental para a consolidação da memória, era substituído pelo brilho azulado e hipnótico da tela. Com o tempo, o cansaço mental, antes esporádico, tornou-se uma névoa constante que passou a embaçar suas notas escolares e a azedar seu humor. A constatação veio de forma numérica: ao acessar as configurações de "Tempo de uso" do aparelho, João deparou-se com uma estatística que o chocou: cinco horas diárias de tempo de tela. No final de uma semana, ele havia dedicado mais de um dia inteiro apenas à recepção passiva de estímulos digitais.


O caso de João não é uma anomalia estatística; ele ilustra uma crise geracional, na qual o excesso de estímulos reconfigura a química cerebral e a percepção de tempo dos jovens. Para entender o que acontece no cérebro de um jovem conectado, é preciso olhar para a dopamina. Frequentemente rotulada como uma "molécula do prazer", a dopamina é, na realidade, o neurotransmissor da motivação e da antecipação. É o combustível químico que nos impulsiona a buscar o que é novo, o que é útil ou o que é socialmente relevante.

O problema central reside no fato de que o design das plataformas modernas, baseado em recompensas variáveis, curtidas, notificações em tempo real e algoritmos de rolagem infinita, realizou um verdadeiro "sequestro" desse mecanismo ancestral. Sobre esse impacto na motivação para tarefas comuns, o acadêmico de psicologia João Pedro Cottet Felini destaca a "desatenção, ansiedade, autocomparação, alta exposição, entre outras que poderiam ser citadas. Para continuar os estudos, é de suma importância que nós trabalhemos em conjunto um detox digital, em todas as redes sociais, e aprendamos a ler mais, nos conectar mais como indivíduos". Onde antes havia a busca por uma fruta na savana, hoje existe a busca por uma curtida ou um vídeo viral. Para João, essa engenharia química traduzia-se em uma angústia constante e onipresente. "Eu não conseguia mais jantar com a minha família sem checar o celular por baixo da mesa. Eu estava ali fisicamente, mas minha mente estava presa em discussões de estranhos na internet, em threads do Twitter ou em vídeos que eu nem ao menos queria ver", confessa.


Essa desconexão biológica quase custou o ingresso de João na faculdade de Administração. Durante o último ano do ensino médio, ele percebeu que sua capacidade cognitiva estava sendo minada. "Eu conseguia repetir todas as tendências da semana, sabia as músicas do momento e os memes que todos estavam comentando, mas não lembrava do conteúdo da aula de matemática assistida naquela mesma manhã", explica.

A NÉVOA CONSTANTE


A dependência de estímulos rápidos tem um preço alto, especialmente na transição para a vida adulta. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e estudos publicados na revista The Lancet relacionam o uso excessivo de telas ao aumento de quadros de ansiedade, depressão e distúrbios do sono em adolescentes. Felini reforça que "tanto o uso prolongado quanto a autocomparação estão trabalhando juntos para esse fenômeno da exaustão digital".


No Brasil, o cenário é particularmente alarmante. O país registra uma das maiores médias globais de tempo de tela. Segundo o relatório Digital de 2024 da We Are Social e Meltwater, jovens brasileiros passam, em média, mais de 9 horas por dia conectados. Esse volume ultrapassa em quase cinco vezes o limite máximo de duas horas recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) para adolescentes entre 11 e 18 anos.


O impacto desse ciclo começa muito antes da queda nas notas escolares; ele se manifesta primeiro na saúde emocional. Ao viver sob o bombardeio constante de "vidas perfeitas", o jovem experimenta uma exaustão silenciosa. Surge, então, o fenômeno FOMO (Fear of Missing Out, em português, medo de ficar de fora). Sobre esse sentimento, Felini comenta que "pode ser um dos fatores para um quadro de depressão, mas não é o único. No meio digital, somos bombardeados por informações vindas de todos os lugares. O que acaba por desencadear um quadro de ansiedade e, por sua vez, a depressão".


"O vício é tão dominante que você nem percebe que parou de viver a sua própria história para ser um espectador da vida dos outros", desabafa João. Essa comparação social constante corrói a autoestima e gera um estado de alerta constante, uma vigilância digital que impede o relaxamento real do sistema nervoso.


O MEDO DO VAZIO


Somado a esse desgaste psicológico, nasce o fenômeno da "atenção fragmentada". Ao saltar de um vídeo de 15 segundos para outro durante horas, o cérebro perde a habilidade de entrar no chamado "estado de fluxo", essencial para tarefas complexas. Sem o suporte emocional equilibrado e com a atenção estilhaçada, o estudante se vê em um beco sem saída, sem conseguir focar no que realmente importa.


Para João Paulo, a decisão de reduzir o consumo não foi um ato de rebeldia contra a tecnologia, mas uma "virada de chave" para retomar sua autonomia sensorial. "Eu comecei a perceber lojas que não conhecia no caminho para a aula, comecei a olhar mais para os movimentos das ruas, para as cores das árvores. Parece que tudo ficou mais colorido", afirma.


Essa percepção não é só poética, ela é fisiológica. Quando reduzimos os picos artificiais gerados pelas telas, os receptores cerebrais passam por um processo de "ressensibilização". Eles voltam a responder a estímulos mais sutis e lentos da vida real. O que antes parecia tédio passa a ser percebido como tranquilidade.


Especialistas como o neurobiólogo Robert Sapolsky reforçam que o sistema dopaminérgico é o motor biológico do entusiasmo. Quando ele é recalibrado, a pessoa volta a sentir motivação para objetivos de longo prazo, como aprender um instrumento ou dominar uma nova língua.


Para entender a luta de João Paulo, é fundamental compreender contra quem ele está lutando. O usuário comum não combate só um hábito pessoal; ele está em um duelo desigual contra supercomputadores e engenheiros de software formados nas melhores universidades do mundo. Eles estão baseados no Vale do Silício, polo tecnológico dos Estados Unidos da América onde as grandes redes sociais são criadas e onde se decide como a tecnologia deve prender a nossa atenção. Lá, utiliza-se uma técnica de psicologia comportamental chamada "reforço intermitente", usando a expectativa e a incerteza para manter o usuário em um estado de vigília dopaminérgica. O design "sem fricção" das redes, onde não há barreiras para continuar consumindo, é projetado especificamente para reforçar esse comportamento.


João ressalta que alertas externos, sermões de pais ou avisos médicos raramente funcionam porque o vício opera em uma camada pré-consciente. "É preciso um choque de realidade pessoal", diz. Para um calouro universitário de 18 anos, cercado por uma geração que mede o valor social pelo engajamento digital, a pressão para estar "online" é a maior barreira.


João Paulo aprendeu que o silêncio e o ócio não são desperdícios de vida, mas momentos de reparação vital. "É o momento em que você aprende a lidar consigo mesmo, a se encarar por dentro. Você aprende a projetar o futuro. É o momento de desligar", explica. Ele agora faz uma provocação aos seus pares: "Pergunte para alguém que assiste a vídeos rápidos quais foram os últimos dez que ela viu. Geralmente, as pessoas passam horas e não lembram de nada. Quando você sai disso, o tempo deixa de ser um borrão e vira algo prazeroso".


Hoje, João Paulo afirma que conseguiu resgatar a profundidade nas suas relações e na sua própria existência. O smartphone deixou de ser um mestre para se tornar uma ferramenta. Ele utiliza aplicativos de organização de tarefas, mas mantém as notificações silenciadas na maior parte do dia. A desculpa comum de que "o dia não rende" sumiu. Ele se sente mais motivado e com o pensamento "limpo".


A sua jornada não é um manifesto contra a modernidade, mas um guia de sobrevivência para ela. Se pudesse encontrar sua versão de um ano atrás, João não daria um sermão. Ele sabe que a mudança é uma jornada solitária e voluntária. "A informação ajuda a abrir os olhos, mas a mudança real só acontece quando você decide retomar as rédeas da própria atenção", conclui o estudante. Agora, entre uma aula de Administração e outra, o som que ecoa não é o de uma notificação, mas as notas de um piano que ele finalmente teve tempo e foco para aprender a tocar.


1 comentário


Kamilly, ao ler seu texto, fiquei impactado pela forma como você conduz um tema tão presente na vida dos jovens. A história de João Paulo aproxima o leitor do problema e faz pensar sobre a nossa própria relação com as telas. É uma reportagem bem construída, sensível e necessária.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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