Entre notificações e cadernos: como telas desafiam a aprendizagem nas escolas
- Lucas Carvalho

- 22 de abr.
- 5 min de leitura
Conteúdos rápidos e múltiplos estímulos estão associados a dificuldades de foco e retenção, apontam educadores e pesquisas

Por Lucas Carvalho | Agência Abre Aspas
O sinal toca, a aula começa e, em poucos minutos, alguns alunos já desviam o olhar do caderno para a mochila, onde o celular vibra distante. Mesmo quando o aparelho não está à vista, a expectativa por novas notificações parece disputar espaço com a explicação no quadro. “Eles até começam a atividade, mas sustentar a atenção por mais tempo exige um esforço maior”, observa a professora Ana Cláudia Wittholter.
A cena, recorrente em diferentes níveis de ensino, ajuda a situar uma discussão que tem ganhado espaço no campo da educação: de que forma o uso frequente de telas e o consumo de conteúdos curtos se relacionam com a atenção, a aprendizagem e a rotina escolar. Longe de respostas simples, o tema envolve percepções de professores, experiências de estudantes e resultados de pesquisas que ainda estão em desenvolvimento.
Nos últimos anos, Ana Cláudia vem percebendo mudanças no comportamento dos alunos, especialmente diante de atividades que exigem maior permanência. Leituras mais longas, explicações sequenciais e exercícios que demandam continuidade tendem a encontrar mais resistência inicial: “não se trata de desinteresse direto. Muitas vezes, é uma dificuldade de permanecer na tarefa”.
Essa percepção é compartilhada pela psicopedagoga Gabriella Cunha, que acompanha crianças e adolescentes em contexto clínico. Segundo ela, há um aumento de queixas relacionadas a cansaço mental e dificuldade de organização da atenção. “Hoje, vemos muitos estudantes expostos a um volume grande de estímulos ao longo do dia. Isso pode gerar uma sensação de sobrecarga”, afirma.
Embora o termo “sobrecarga” apareça com frequência no discurso cotidiano, a psicopedagoga ressalta a importância de tratá-lo com cautela. Em vez de indicar um diagnóstico fechado, ele funciona como uma forma de descrever a experiência de lidar com múltiplas informações em sequência, sem tempo de elaboração.
Pesquisas ajudam a dar contorno a essa discussão. Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), baseado em dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), aponta que alunos que utilizam dispositivos digitais de maneira intensiva tendem a relatar maior dificuldade de concentração em atividades escolares. O estudo destaca que a relação não é linear nem exclusiva, fatores como contexto socioeconômico, qualidade do ensino e hábitos de estudo também influenciam o desempenho, mas indica uma associação consistente.
Na avaliação de Gabriella, conteúdos rápidos e altamente estimulantes tendem a oferecer respostas imediatas, o que pode alterar expectativas em relação ao tempo de realização de outras tarefas. “Atividades mais longas não deixam de ser possíveis, mas passam a exigir mais treino e disposição”. Para ela, o processo está ligado à construção de hábitos.
Essa mudança de ritmo é percebida no cotidiano da sala de aula. “Quando algo exige mais tempo, há um estranhamento inicial”, diz Ana Cláudia, ao enfatizar que “parte do trabalho, hoje, é justamente ajudar o aluno a retomar esse tempo de concentração e mostrar que o aprendizado também acontece nesse percurso mais longo”.
DIFICULDADE DE RETENÇÃO E APROFUNDAMENTO
Além da atenção, professores relatam impactos na forma como os conteúdos são assimilados. Segundo Ana Cláudia, o acesso facilitado à informação nem sempre se traduz em conhecimento apreendido. “Eles encontram respostas com rapidez, mas isso não significa que o conhecimento foi apropriado”, disse.
Nesse cenário, a construção de sentido ganha importância. “Quando o conteúdo se conecta com a realidade do aluno, a chance de retenção aumenta”, salienta a professora, que relata ter adaptado estratégias para tornar as aulas mais participativas, sem abrir mão de momentos de explicação mais estruturada.
Entre os estudantes, a relação com os conteúdos também revela mudanças. Emanuely Schoffen, aluna do Ensino Médio de um colégio público, conta que consome vídeos curtos com frequência, principalmente à noite, e reconhece preferência por formatos mais rápidos. Ela relata dificuldade com textos longos e momentos de cansaço mental ao estudar, embora afirme que a escola continua sendo sua principal referência de conhecimento.
Ao comentar o comportamento de colegas, Emanuely avalia que muitos se distraem com facilidade. A fala, no entanto, expressa uma percepção individual e não representa um diagnóstico generalizado.
O estudante Davi Francisco, que cursa o Ensino Médio em um colégio particular, descreve uma experiência semelhante, mas com nuances. Ele afirma que se distrai com estímulos variados e sente vontade de checar o celular durante os estudos. Ao mesmo tempo, acredita que aprende por diferentes meios, incluindo a internet. “Hoje, a gente aprende com coisas mais resumidas também”, comenta.
O CELULAR EM SALA E AS TENTATIVAS DE REGULAÇÃO
A presença constante dos celulares no ambiente escolar tem levado instituições a testar diferentes formas de regulação. Na escola onde Ana Cláudia leciona, foi adotada uma norma interna que restringe o uso de celulares durante as aulas, permitindo o acesso apenas em atividades orientadas.
Segundo a professora, a implementação da medida foi acompanhada de resistência inicial por parte dos alunos. Nas primeiras semanas, ela observou inquietação e dificuldade de adaptação. “Houve um desconforto claro no começo”, relata.
Com o passar do tempo, no entanto, ela percebeu mudanças no clima da sala. “Aos poucos, alguns alunos passaram a se envolver mais nas atividades e nas interações presenciais”. Ainda assim, ressalta que a medida não resolve todos os desafios relacionados à atenção.
A percepção dos estudantes não é uniforme. Davi, por exemplo, considera que a restrição teve pouco impacto em sua rotina de estudos. A diferença de avaliações indica que o tema ainda está em aberto e depende de múltiplos fatores, incluindo hábitos individuais e contextos familiares.
USO DE TELAS, ROTINA E BEM-ESTAR
Outro ponto associado ao uso intensivo de dispositivos digitais é a organização da rotina. Gabriella Cunha destaca que o consumo de conteúdos, especialmente no período noturno, interfere no sono, o que impacta diretamente a disposição e o desempenho escolar.
Além disso, ela observa que a lógica de recompensas rápidas dificulta a tolerância a atividades que exigem espera e continuidade. “Isso não se limita à aprendizagem. Também envolve aspectos emocionais, como lidar com frustração e manter o esforço ao longo do tempo”, explica.
Ainda assim, a psicopedagoga reforça que o cenário não deve ser tratado de forma determinista. “O cérebro tem capacidade de adaptação. Com orientação e prática, é possível desenvolver novamente a atenção e o foco”.
Entre as estratégias apontadas, estão a criação de rotinas de estudo com menos interrupções, a introdução gradual de leituras mais longas e a mediação do uso de tecnologia por adultos. No ambiente escolar, isso se traduz em propostas que equilibram diferentes formatos de ensino.
Ana Cláudia afirma que precisou rever parte de sua prática pedagógica nos últimos anos. “Não é abandonar o que já existia, mas pensar em como organizar melhor o tempo da aula e diversificar as abordagens”. Para ela, o desafio está em manter o engajamento dos alunos sem abrir mão da profundidade.
A professora também defende que a tecnologia deve ser incorporada como ferramenta, desde que com intencionalidade. “Ignorar o digital não é uma opção, mas ele não pode substituir o processo de construção do conhecimento”.
Em meio a telas, notificações e múltiplas fontes de informação, a escola segue como espaço de mediação. Mais do que restringir ou liberar o uso de dispositivos, o desafio tem sido construir condições para que os estudantes desenvolvam a capacidade de se concentrar, compreender e aprofundar habilidades que continuam centrais para a aprendizagem, independentemente do formato em que o conteúdo é apresentado.

Lucas, o seu texto me fez pensar sobre como as telas atravessam a rotina escolar de forma silenciosa, disputando atenção com o aprendizado. Você foi muito feliz em trazer relatos de professores, estudantes e pesquisas, sem tratar o tema de maneira simplista. A reportagem mostra bem que o desafio não é só controlar o celular, mas reconstruir o tempo da concentração na escola.