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Entre a saudade e o alívio

Com lembranças ligadas a clínicas de reabilitação e telefonemas de emergência, a perda do pai, aos poucos e em vida, ensinou à psicóloga Suellen Valiski que nem todo luto vem com lágrimas


Suellen encontra na maternidade um refúgio para seu luto. | Créditos da foto: Fernando Tiegs
Suellen encontra na maternidade um refúgio para seu luto. | Créditos da foto: Fernando Tiegs

Por Júlia Novello | Agência Abre Aspas

           

“Se eu tivesse que categorizar meu luto, eu não sei dizer, provavelmente indefinido. Não sei se passei por ele ou não”, foi o que ela disse 15 minutos após nossa conversa ter iniciado. “Ela” é a Suellen. Suellen Valiski, minha psicóloga há alguns anos. Eu a conheci em uma quinta-feira qualquer, na data de um ano de falecimento da minha avó, e logo na primeira sessão descobri que ela havia perdido o pai recentemente. O que nos aproximou foi o luto. O dela, descobriria alguns anos depois, era totalmente diferente do meu. Para ela, a ausência física veio muitos anos depois da afetiva e, talvez, a dor nunca tenha chegado; ficou perdida pelas recepções e salas de espera de clínicas de reabilitação.

 

MEMÓRIAS

 

Com muitos detalhes das situações, mas poucos traços de aproximação, ela me contou a história do seu pai. Lentamente, Suellen viu o pai amoroso e cuidadoso se transformar em um homem perdido em vícios e sentimentos. Além do histórico familiar de depressão e alcoolismo, Clóvis Valiski sentiu na pele as duas doenças e foi perdendo partes de si pelo caminho.

 

As lembranças não a fizeram embargar a voz, nem os lábios tremerem ou os olhos lacrimejarem. Ela parecia calma, não afetada, mas o corpo deu um sinal que sintetiza toda a carga e a sobrecarga de resgatar as memórias: “Eu tô falando com você e fiquei tonta, tontinha”. Perguntei o porquê, ela simplesmente respondeu “não sei, acho que de falar sobre, porque acho que é uma coisa que ainda não está bem elaborada, mas eu prefiro não elaborar”. As memórias são turvas devido ao curto espaço de tempo, e acompanham o estágio do luto que nem mesmo sabe definir.

 

“Ele sempre foi um pai presente, mas a bebida o fazia se transformar. Entretanto, naquela época ainda não era considerado alcoolismo”. Clóvis nunca foi agressivo nem faltou a uma apresentação de escola, mas as memórias de carinho e admiração se misturam com a dor e os desafios. “Quando ele conseguia, meu pai sempre ajudava. Os três primeiros anos da minha faculdade ele pagou integralmente. Só que era aquela coisa: se ele ganhava dinheiro, primeiro ele torrava no bar para depois ajudar”.

 

Aos 15 anos, Suellen viu os pais se separarem, o que comprometeu a convivência rotineira e se tornou uma faísca no desenvolvimento do quadro de alcoolismo. “Depois disso começou a se intensificar a questão com a bebida. Acho que meu pai nunca pensou que a minha mãe ia se separar dele. (...) Aí nessa época começou: ele ficava bêbado e não sabia onde estava. Eu lembro que, depois da faculdade, ele me ligava durante os meus atendimentos e eu tinha que sair correndo, porque não sabia onde ele estava. Então eu comecei a criar um pouco de resistência”.

 

Com os episódios depressivos mais frequentes e o abuso de álcool aumentando a cada dia, Clóvis foi internado em clínicas de reabilitação diversas vezes. “Meu pai só não morreu antes porque ele se internava quando via que a coisa tava ficando feia, que ele tava muito mal”. As internações eram de longa duração, então Clóvis passava, muitas vezes, um ano inteiro recluso e em tratamento.

 

Ela comprava o que era necessário para as internações, escrevia cartas, fazia visitas e cuidava da casa. Então, por saber que fez tudo o que estava ao seu alcance, a culpa não a atingiu. “Depois que eu conheci o Diego, meu marido, ele disse ‘Chega, você vai viver em função do seu pai?’. Ele me ajudou muito a superar isso. Eu entendi que aquilo não era problema meu, que era uma escolha dele, que eu era filha e poderia ajudar até certo ponto (...) mas que a partir do momento que ele saía de lá era uma escolha dele voltar a beber, por mais que a gente sabe que é uma doença, que é difícil, eu não poderia ficar 24 horas com ele”.

 

Entretanto, a consciência limpa não evitava que as consequências dos problemas do pai continuassem a atingi-la. “Nos últimos anos, a relação com a bebida se agravou. A gente chegava lá e ele não conseguia acordar para abrir a porta. Aí era assim: ele tinha um carro, ia no bar e trocava. Trocava de carro com as pessoas do bar.” Tendo que dividir a atenção entre os problemas do pai e os cotidianos, o desgaste era inevitável.

 

“Eu acho que eu criei uma casca, para a relação da morte, porque toda hora que eu chegava, eu pensava que ele estava morto”.

 

Seu pai faleceu na quinta-feira, 7 de novembro de 2019, por cirrose hepática. Um dia marcado por sentimentos dúbios: tristeza pela partida de alguém tão importante, mas na mesma proporção, o alívio marcou presença. Alívio pelo fim de um ciclo que não afetava apenas seu pai. Alívio porque ele descansaria, mas ela também. Alívio de saber que todos aqueles anos de desgaste e preocupação tinham ficado para trás, no passado. Um passado doloroso, mas que não passaria de lembranças, porque agora Clóvis Valiski descansava.

 

“Um dia eu acordei, fazia uns dias que eu não conversava com ele, e me senti mal, pensei ‘tenho que falar com o meu pai’ e mandei mensagem pra ele. Perguntei como ele tava e ele disse que tava mal. Quando cheguei lá, ele demorou cerca de 20 minutos para descer 3 lances de escada do prédio em que morava, porque ele não conseguiu abrir pelo interfone.” No momento em que ele passou pelo pórtico do prédio, a filha acionou a ambulância. Clóvis chegou ao hospital com o corpo todo amarelo, e lá passou seus últimos seis dias.

 

No puerpério, ficar no hospital e acompanhar a internação era impossível. Depois de tanto abdicar em função do pai, ela se priorizou. Uma vida totalmente dependente de carinho e cuidado a esperava em casa, um bebê sensível que deveria ser exposto à menor quantidade possível de riscos, mas na terça-feira o coração falou mais alto. “Eu precisava ir ver meu pai, eu preciso. Nem que depois eu voltasse e me esterilizasse toda ou tomasse banho de álcool. Quando cheguei no hospital a primeira coisa que veio à cabeça foi me despedir, e foi a primeira coisa que eu fiz. Olha pra onde a minha cabeça foi, de tanta coisa que eu já tinha passado com ele”.

 

A saudade é o azar de quem teve a sorte de amar muito, e Suellen sabia, assim que saiu daquele hospital, que ela não teria mais a sorte de amar seu pai em vida. Ela passou pela porta de casa aos prantos e se deparou com seu marido e seu sogro cuidando de seu filho. Ela olhou para eles e disse: “Essa foi a última vez que eu vi meu pai”, e, tristemente, ela estava certa.

 

“Eu me desesperei mais, de chorar mesmo, durante o velório, porque depois acho que acabei depositando tudo na maternidade”. As lágrimas tomaram conta do momento de despedida entre pai e filha, mas foi isso: o choro começou e terminou naquele dia e não deu as caras novamente. As visitas ao cemitério também não são frequentes. Datas de aniversário ou de morte não a fazem sofrer. Suellen não possui rituais relacionados à morte do pai. Talvez porque seu luto tenha começado muitos anos antes e seus rituais de despedida tenham sido todas as vezes em que se encontravam, já que ela não sabia quando seria a última vez.

 

A VIDA SEGUE

 

Assim como a morte aconteceu, a vida continuou acontecendo. Suellen mudou de casa, teve outro filho e adotou cachorrinhos. A ausência do pai se faz presente, mas talvez não de forma tão consciente. Durante os atendimentos, ao trabalhar o luto com os pacientes, as lembranças do pai não aparecem. “É diferente, na clínica a gente tenta não colocar tanto as nossas vivências pessoais (...) Quando eu vejo algum vídeo, aí me dá mais angústia, de saber que ele poderia ter vivido mais tempo, que poderia ser diferente.(...) O que mais me doeu esse tempo todo foi saber que nos momentos importantes da minha vida ele não estará”.

 

A falta da figura paterna já não afeta seu dia a dia, pois eles já não tinham uma rotina desde que ela tinha 15 anos. Com a separação dos pais e o passar do tempo, ele foi gradativamente desaparecendo, fosse por estar em um bar, em uma internação ou, agora, em outro lugar. A rotina foi tomando conta da vida, as responsabilidades e os filhos tornaram-se seu foco e não sobrou tempo para aquilo que não volta.

 

Nem todo luto vem com lágrimas, rituais e lembranças dolorosas. O luto de Suellen não engloba visitas ao cemitério ou datas marcantes regadas a lágrimas. Esse luto é marcado pela exaustão, pelo distanciamento afetivo, pela ausência, pelo alívio e pela contradição. Esse luto começou muito antes da morte, não tem data de início e muito menos prazo de validade.

Suellen e Clóvis | Créditos da foto: Arquivo pessoal
Suellen e Clóvis | Créditos da foto: Arquivo pessoal

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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