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Do centro ao shopping: a mudança que transformou o cinema em evento

Com o avanço dos multiplex em shoppings e do streaming, antigas salas de rua perderam espaço e a ida ao cinema passou a ser um programa planejado


As salas multiplex dos shoppings se tornaram o principal modelo de exibição e passaram a disputar a atenção do público com as plataformas de streaming | Crédito da foto: Cinema Catuaí
As salas multiplex dos shoppings se tornaram o principal modelo de exibição e passaram a disputar a atenção do público com as plataformas de streaming | Crédito da foto: Cinema Catuaí

Por Victor Gabriel | Agência Abre Aspas


Antes de caber na agenda do shopping, o cinema ocupava as ruas. As grandes salas ficavam nos centros urbanos, iluminavam fachadas, movimentavam calçadas e faziam parte de uma rotina de encontro. Ir ao cinema podia ser uma decisão simples, tomada no caminho de casa, depois do trabalho, antes de um passeio ou no meio de uma tarde livre.


Muito antes da popularização dos shoppings, essas salas funcionavam como pontos de convivência. Aproximavam diferentes públicos, movimentavam o comércio do entorno e ajudavam a manter viva a circulação cultural das cidades. O filme era o motivo principal da saída. A pipoca, a praça de alimentação e as vitrines ainda não organizavam toda a experiência.


No artigo “Em processo de extinção: os cinemas de rua sobreviventes e a vocação cinematográfica no espaço urbano carioca” (2019), os pesquisadores Márcia Bessa e Wilson Oliveira Filho defendem que os cinemas de rua exerciam uma função que ultrapassava a exibição de filmes. Inseridos na dinâmica urbana, esses espaços atuavam como pontos de encontro e convivência, contribuindo para a circulação de pessoas, para a vida cultural dos bairros e para a ocupação dos espaços públicos da cidade. 


No Rio de Janeiro, a cidade chegou a abrigar mais de 170 cinemas de rua ao longo do século 20. Hoje, apenas uma pequena parcela dessas salas permanece em funcionamento. Entre elas está o tradicional Cine Odeon, inaugurado em 1926 e localizado na Cinelândia. O caso carioca ajuda a entender um movimento que atingiu outras cidades brasileiras, o cinema não desapareceu, mas mudou de endereço, de preço e de significado. 


DO CENTRO AO SHOPPING


O fechamento das salas de rua foi resultado de transformações econômicas, urbanas e tecnológicas que se intensificaram a partir das décadas de 1980 e 1990. A televisão já havia alterado os hábitos de consumo cultural dentro das casas. Depois vieram o videocassete, os DVDs, a TV por assinatura e, mais tarde, os serviços de streaming, que ampliaram as formas de assistir a filmes sem sair de casa.


Ao mesmo tempo, a valorização imobiliária dos centros urbanos tornou mais caro manter grandes salas em áreas comerciais. Muitos imóveis foram vendidos, adaptados ou substituídos por atividades consideradas mais lucrativas. Com a expansão dos bairros e o crescimento dos shoppings, parte da circulação de pessoas deixou os centros tradicionais e passou a se concentrar nesses empreendimentos.


Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostram que, em 2017, quase 89% das salas de cinema brasileiras já estavam localizadas dentro de shoppings. Os cinemas de rua representavam uma parcela pequena do mercado exibidor nacional, o que indica uma mudança estrutural no modo como o público passou a acessar a experiência cinematográfica.


O CINEMA COMO PROGRAMA


Enquanto os cinemas tradicionais fechavam as portas, os shoppings se consolidaram como os novos espaços de lazer das cidades. As redes exibidoras passaram a investir nos multiplex, complexos com várias salas em um único local. O modelo ampliou a quantidade de filmes em cartaz, trouxe projeção digital, sistemas de som mais potentes e salas com maior conforto.


Essas mudanças também alteraram a lógica do passeio. Antes ou depois da sessão, o público passou a comer na praça de alimentação, fazer compras, pagar estacionamento ou circular pelo shopping.

O cinema deixou de ser uma atividade isolada e passou a compor um pacote de consumo. Para muitas famílias, isso tornou a ida ao cinema mais cara e menos frequente.

Nesse cenário, o cinema assumiu outro papel. Em vez de hábito semanal, tornou-se programa especial, muitas vezes reservado para grandes estreias, continuações de franquias ou filmes cercados de expectativa. Produções como Vingadores: Guerra Infinita, Vingadores: Ultimato e o retorno de Star Wars às salas transformaram sessões em momentos de celebração coletiva, com aplausos, gritos e reações compartilhadas.


A experiência coletiva segue sendo uma das forças do cinema. Nenhuma sala de casa reproduz completamente a sensação de assistir a uma cena decisiva ao lado de dezenas ou centenas de pessoas. O problema começa quando a empolgação deixa de respeitar quem está ali para acompanhar o filme. Conversas, celulares acesos, gritos fora de hora e brincadeiras feitas para redes sociais passaram a interferir na experiência de parte do público.


Em 2025, vídeos divulgados nas redes sociais durante sessões de Um Filme Minecraft mostraram comportamentos que foram além da empolgação comum do público. Entre os registros viralizados estavam espectadores jogando pipoca, gritando durante cenas específicas e até levando uma galinha para o cinema em referência a uma cena do filme. Embora esses casos tenham ocorrido em sessões isoladas, eles geraram debates sobre os limites da participação do público e levaram algumas redes de cinema a reforçar regras de conduta. 


O mercado também passou a apostar em salas VIP, poltronas reclináveis, formatos especiais e experiências imersivas. A proposta é fazer da ida ao cinema algo que justifique o deslocamento e o preço do ingresso. Em parte, esse movimento responde à concorrência das plataformas digitais. Em outra medida, reforça a transformação do cinema em evento.


O CONFORTO DA CASA


As plataformas de streaming mudaram a relação do público com os filmes. Milhares de títulos ficam disponíveis a qualquer hora, sem deslocamento, sem horário fixo e sem os custos extras de transporte, alimentação e estacionamento. A casa passou a oferecer controle, pausa, silêncio e privacidade, elementos que muitos espectadores passaram a valorizar mais do que a tela grande.


Pesquisa divulgada pela Serasa em 2024 mostrou que 79% dos brasileiros já destinavam parte do orçamento às plataformas de streaming. O mesmo levantamento indicou que sete em cada dez pessoas preferiam assistir a filmes em casa a ir ao cinema. Entre os motivos citados estavam o conforto do lar e a percepção de que já não é necessário sair para consumir esse tipo de conteúdo.


Para Eduarda Biesek, de 22 anos, a mudança tem relação direta com o comportamento de parte do público nas salas. “Eu perdi a vontade de ir ao cinema justamente por conta das pessoas. Tem muita conversa, muita gente invasiva, falta de respeito pelos lugares dos outros e, principalmente, uso de celular dentro da sala”.


Jéssica Morais, de Cascavel, também prefere assistir em casa pela liberdade de controlar o próprio tempo.

“O bom de assistir em casa é que posso escolher o que quiser e parar quando quiser, seja para ir ao banheiro, fazer uma pipoca ou resolver outra coisa”.

Matheus Nicolas, da cidade de Indaiatuba, São Paulo, compartilha da mesma percepção e associa o streaming ao conforto. “Assistir na minha cama, com coberta, roupa confortável e comendo o que eu quiser, não tem preço”.


UMA OUTRA RELAÇÃO COM A CIDADE


Apesar das transformações, o cinema ainda exerce fascínio. A tela grande, o som da sala escura e a reação coletiva continuam compondo uma experiência própria. O que mudou foi a relação entre o cinema e a cidade. A modernização trouxe conforto, tecnologia e novos modelos de exibição, mas também deslocou o cinema de um espaço urbano aberto para ambientes privados de consumo.


Os antigos cinemas de rua não eram apenas locais de exibição. Eles atraíam pessoas para os centros, movimentavam pequenos comércios, davam vida às calçadas e faziam parte da memória urbana. Com o fechamento dessas salas, muitos centros perderam parte do fluxo que ajudava a manter viva a circulação cultural cotidiana.


O cinema, portanto, não morreu. Ele trocou de lugar, de ritmo e de expectativa. Saiu da rotina de muitos espectadores e passou a disputar espaço com o sofá, o celular, a assinatura mensal e o preço do passeio. Ainda pode ser encontro, experiência coletiva e memória compartilhada. Mas já não ocupa a cidade da mesma maneira. Quando saiu da rua e entrou no shopping, o cinema também deixou de ser apenas uma sessão. Virou evento. 




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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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