Distância e determinação: a jornada de duas jovens tocantinenses pelo futsal feminino
- Heloyse Anjos
- há 1 dia
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Atletas deixam suas cidades de origem para buscar oportunidades e revelam os desafios estruturais do esporte feminino no Brasil

Por Heloyse Anjos | Agência Abre Aspas
Sair de Colinas ou de Wanderlândia, no interior do Tocantins, para conseguir seguir carreira no futsal já diz muito sobre a realidade do esporte feminino no Brasil. Para as atletas Evelyn Pereira dos Reis e Anna Júlia dos Reis Oliveira, o sonho de jogar profissionalmente cobrou um preço precoce: deixar a família, mudar de região e transformar a distância em rotina antes mesmo de completarem a maioridade. A trajetória de ambas expõe o contraste entre o talento que brota no Norte do país e a falta de estrutura local para retê-lo.
A viagem rumo ao Sul começou em pontos diferentes do mapa do Tocantins. Em Wanderlândia, Evelyn organizava as malas sabendo que a despedida da mãe significava o fim de uma rotina e o início de uma aposta no desconhecido. A poucos quilómetros dali, em Colinas, Anna Júlia vivia o mesmo processo: o abraço de adeus na família e o embarque na primeira grande viagem da sua vida. Após horas de estrada e conexões, o destino final uniu as duas na chegada ao novo clube Stein Cascavel, onde a receção na estrutura desportiva e o primeiro contacto com o alojamento transformaram a ansiedade da mudança na certeza de que a nova rotina já tinha começado.
Durante grande parte do século XX, o futebol feminino no Brasil foi vetado por lei entre 1941 e 1979, sob a justificativa de ser “incompatível com a natureza feminina”. Embora a proibição tenha caído, os reflexos desse apagamento histórico ainda ditam a distribuição de investimentos e desenham o cenário atual, onde as oportunidades têm endereço fixo.
O CENÁRIO REGIONAL EXPLICA A REALIDADE DO ESPORTE
A estrutura de formação e as oportunidades de base no futebol e futsal feminino estão concentradas em apenas duas regiões do país. Segundo o Diagnóstico do Ministério do Esporte, realizado em 2023, 84% das atletas das categorias de base atuam em clubes do Sul e do Sudeste. O recorte da região Norte é o mais alarmante: embora 2% das atletas brasileiras tenham nascido ali, o percentual de meninas em categorias de base federadas em clubes locais é muito baixo em comparação com o eixo Sul-Sudeste.
Essa escassez de clubes estruturados, ligas de base e patrocínios de longo prazo no Norte e no Nordeste sufoca o desenvolvimento de novos talentos locais. Sem competições regulares ao longo do ano e sem contratos de formação, a migração precoce acaba se tornando o único caminho viável para quem deseja evoluir tecnicamente, gerando um esvaziamento esportivo nessas regiões e um alto custo financeiro e emocional para as famílias. Em 2026, o campeonato tocantinense contou com apenas 10 equipes federadas. O número choca, porém em comparação com a edição anterior, vemos um salto. Outrora, apenas quatro clubes compunham a edição, em torneio realizado em apenas três dias.
Ironicamente, o salto se explica em decorrência do fato de que a Federação Tocantinense de Futebol (FTF) anunciou, no fim de 2024, a obrigatoriedade dos times masculinos da primeira divisão em disputar com equipes femininas na edição seguinte.
De acordo com Daiany França Saldanha, pesquisadora de investimento corporativo, esporte e leis de incentivo e CEO da organização Líderes Esportivos, essa concentração de recursos cria barreiras difíceis de superar. “Essa disposição compromete o princípio fundamental de que o esporte deve ser acessível a todos, independentemente da localização geográfica ou da condição econômica”, afirma.
É justamente nessa lacuna que as histórias de Evelyn Pereira dos Reis e Anna Júlia dos Reis Oliveira se cruzam, ilustrando como a migração esportiva se tornou uma das poucas vitrines possíveis.
TALENTO NO GOL E A ROTINA DA SAUDADE
Evelyn Pereira dos Reis nasceu em Wanderlândia, no norte do Tocantins. Sem clubes de alto rendimento por perto, precisou buscar espaço na vizinha Araguaína.
Foi ali que chamou a atenção, sendo eleita três vezes a melhor goleira do estado na base. Mas o salto na carreira exigiu o distanciamento de casa.
Aos 18 anos, Evelyn se transferiu para o São Carlos (SP) e, posteriormente, para o Stein Cascavel (PR). A transição foi rápida e o impacto, imediato. "No começo, eu não entendia muito, pois saí de casa muito cedo. Era uma rotina muito diferente, mas eu sabia que era o meu sonho. Isso me deixou um pouco mais tranquila", relata.
Mais do que a exigência física dos treinos em uma das principais equipes de futsal do país, o peso real estava fora das quatro linhas. "A maior dificuldade foi lidar com a saudade de casa. Eu não sabia lidar bem com a falta da família, mas fui aprendendo com o apoio deles. Se estou onde estou hoje, com toda certeza é por conta deles", desabafa a goleira, evidenciando que o custo emocional é o eixo invisível da sua trajetória.
Hoje integrada ao elenco profissional do Stein Cascavel, Evelyn divide a quadra com referências como Bianca Castagnaro, já convocada para a seleção brasileira. "Chegar ao Stein foi uma realização. Eu sempre acompanhava pela televisão, via postagens. Sonhava em estar aqui e hoje me sinto muito feliz", conta, destacando como essa proximidade contribui diretamente para sua evolução técnica e aumento de confiança.
AS COMPETIÇÕES ESCOLARES COMO PRINCIPAL VITRINE
A história de Anna Júlia dos Reis Oliveira, natural de Colinas do Tocantins, reforça como o sistema de base depende de iniciativas paralelas à estrutura dos clubes tradicionais. Ela começou aos 15 anos no futebol society amador, passou pela equipe amadora e projeto social "100 Limites", de Araguaína, onde jogou com Evelyn, e pelo Colégio Estadual Guilherme Dourado.
No Tocantins, os torneios entre escolas foram seu único caminho de projeção. Por meio deles, foi vice-campeã mundial escolar de futsal em 2023 e conquistou o quarto lugar no mundial escolar de futebol de campo em 2024.
"Eu comecei do zero no Tocantins. Tinha profissionais que me incentivaram a acreditar que todo o trabalho valeria a pena", relembra Anna Júlia. Para ela, o ambiente escolar supriu a ausência de clubes de base na região.
"O que me fez sair do Brasil foi o campeonato escolar. Conheci outros países, culturas e línguas através do futsal", explica a fixa, deixando claro que foram essas viagens internacionais pelo torneio escolar que abriram seus horizontes, e não uma contratação por um clube estrangeiro.
Anna Júlia chegou ao Stein Cascavel em 2025. Em 2026, alcançou a braçadeira de capitã do time sub-20 e a convocação para a Seleção Brasileira Sub-23. "Foi um sonho realizado, algo que eu tinha desde criança. Ver que fazer as coisas certas e estar ao lado dos melhores profissionais faz toda a diferença na carreira", afirma.
O GARGALO DA BASE
As trajetórias de sucesso dessas atletas se desenvolvem em um cenário de busca por espaço no futsal feminino, modalidade que se organiza para o seu primeiro Mundial oficializado pela FIFA. No Brasil, embora o interesse das mulheres por esportes tenha crescido 25%, em dados do IBOPE, entre 2020 e 2025, os dados de investimento na base da modalidade ainda são tímidos se comparados ao futebol de campo.
A escassez de dados específicos sobre o futsal feminino de base e a distribuição irregular de federações ativas no Norte limitam o monitoramento desses talentos, tornando trajetórias como as das atletas tocantinenses exceções moldadas pelo esforço pessoal e escolar, e não por uma política esportiva integrada e descentralizada.
INCENTIVO E DADOS DA BASE
Para as meninas que hoje treinam nas quadras do interior do Norte, Evelyn Pereira e Anna Júlia deixam recados que equilibram a realidade com o incentivo. "Nunca desistam. No momento em que achei que não conseguiria, Deus me abriu uma porta", diz Evelyn. Anna Júlia completa: "O caminho é possível, mas exige mais do que talento. Dedicação e disciplina fazem a diferença. Nem sempre será fácil, haverá cansaço e dúvida, mas é nesses momentos que você cresce".
As trajetórias de sucesso dessas atletas se desenvolvem em um cenário de busca por espaço no futsal feminino, modalidade que ganhou seu primeiro Mundial oficializado pela FIFA em 2025. No Brasil, embora uma pesquisa do Ibope Repucom aponte que o interesse das mulheres por diversas modalidades esportivas tenha crescido, em média, 25% entre 2020 e 2025, os dados de investimento na base do futsal ainda são tímidos se comparados ao futebol de campo.
