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Diagnóstico precoce de cardiopatia congênita amplia chances de recuperação

Caso de Théo Bosi reforça importância de reconhecer sinais e garantir acesso rápido ao atendimento especializado


Théo passou por cirurgia cardíaca ainda bebê para correção de Comunicação Interatrial e Comunicação Interventricular | Crédito da Foto: Arquivo pessoal
Théo passou por cirurgia cardíaca ainda bebê para correção de Comunicação Interatrial e Comunicação Interventricular | Crédito da Foto: Arquivo pessoal

Por Luiza Bosi | Agência Abre Aspas


Em 2023, a rotina da família Bosi mudou de forma repentina. Théo Alexandre Bosi, então com quatro meses de vida, foi diagnosticado com duas alterações cardíacas congênitas e precisou passar por uma cirurgia ainda bebê. Hoje, aos três anos, leva uma vida comum: corre, brinca e esbanja energia. A trajetória do menino reforça a importância do diagnóstico precoce e do acesso rápido ao tratamento especializado.


Cardiopatia congênita é o termo utilizado para definir alterações na estrutura ou no funcionamento do coração que surgem ainda durante a formação do bebê, no período intrauterino. Em todo o mundo, cerca de um a cada cem nascidos vivos apresenta algum tipo de cardiopatia congênita. Estudo de revisão publicado no Journal of the American College of Cardiology estima aproximadamente 1,35 milhão de novos casos por ano. No Brasil, a condição também representa um desafio de saúde pública, especialmente pela necessidade de diagnóstico e tratamento ainda nos primeiros meses de vida.


Embora algumas alterações sejam identificadas durante a gestação, nem sempre o diagnóstico acontece antes do nascimento. Foi o que ocorreu com Théo. Segundo a mãe, Bruna Bosi, todos os exames realizados no pré-natal apontavam normalidade. “Eu não imaginava que ele tinha essa condição, porque, desde a gestação, os exames deram todos normais. Ele nasceu saudável. Foi um susto”, relembra.


A cardiologista Giolana Mascarenhas, responsável pelo acompanhamento do menino, explica que o coração começa a se formar nas primeiras semanas de gestação e já pode ser visualizado no início do pré-natal. No entanto, os exames morfológicos realizados ao longo da gravidez fazem uma avaliação geral e nem sempre conseguem identificar alterações cardíacas específicas.


De acordo com a especialista, o exame mais indicado para investigar esse tipo de problema é o ecocardiograma fetal, que pode ser realizado a partir da 18ª semana de gestação. As melhores imagens, no entanto, costumam ser obtidas entre a 24ª e a 28ª semana. Em casos de suspeita clínica, alterações anteriores ou presença de síndromes genéticas, ele pode ser solicitado antes. O exame permite avaliar em detalhe o funcionamento e a anatomia cardíaca do bebê, aumentando as chances de identificar alterações ainda no útero.


Mesmo assim, algumas cardiopatias podem ser difíceis de detectar ainda na gestação, especialmente a depender do tamanho e da localização da alteração. Por isso, o acompanhamento pediátrico após o nascimento também é essencial. Consultas regulares, avaliação clínica cuidadosa e atenção aos sintomas ajudam a identificar casos que não foram percebidos no pré-natal.


OS PRIMEIROS SINAIS


No caso de Théo, os sinais apareceram nos primeiros meses de vida. Durante uma consulta de rotina, uma pediatra percebeu um sopro cardíaco, inicialmente considerado inocente. Em outro atendimento, uma segunda médica observou que o bebê apresentava cansaço para respirar e recomendou a internação para investigação.


Durante a avaliação hospitalar, a equipe médica identificou outros sintomas importantes, como dificuldade para ganhar peso, suor excessivo durante a amamentação e pausas frequentes para recuperar o fôlego enquanto mamava. Esses sinais são comuns em algumas cardiopatias e costumam acender o alerta para a necessidade de exames complementares.


Os sintomas levaram ao diagnóstico de Comunicação Interatrial (CIA) e Comunicação Interventricular (CIV), duas cardiopatias congênitas caracterizadas por pequenas aberturas em regiões do coração que deveriam estar fechadas após o nascimento.


A CIA acontece entre os átrios, cavidades superiores do coração. Já a CIV ocorre entre os ventrículos, localizados na parte inferior. Dependendo do tamanho dessas comunicações, o fluxo sanguíneo pode ser alterado, sobrecarregando o coração e os pulmões. Quando não tratadas adequadamente, algumas alterações podem comprometer o crescimento da criança e aumentar o risco de complicações clínicas.


CIRURGIA E RECUPERAÇÃO


Segundo a cardiologista, alguns pacientes nascem com CIVs pequenas e, em determinados casos, o fechamento pode acontecer espontaneamente no primeiro ano de vida. Quando isso não ocorre, ou quando a alteração compromete a saúde da criança, pode ser necessária cirurgia corretiva. Cada caso é avaliado individualmente, levando em conta sintomas, exames e impacto no desenvolvimento infantil.


No Brasil, cerca de 30 mil crianças nascem com cardiopatia congênita por ano, de acordo com o Ministério da Saúde. Parte delas precisa de procedimento cirúrgico para correção do problema. O número reforça a necessidade de ampliar o acesso a centros especializados, exames e acompanhamento multiprofissional.


Quando a abertura entre as cavidades exige intervenção, a cirurgia pode ser realizada com o tórax aberto e auxílio de uma máquina de circulação extracorpórea, responsável por manter o sangue circulando enquanto os médicos operam o coração. Trata-se de um procedimento delicado, realizado por equipes especializadas em cirurgia cardiovascular pediátrica.


Durante o procedimento, o coração pode ser parado temporariamente para que a correção seja feita com segurança. Para fechar as aberturas, são utilizados materiais específicos, como enxertos biológicos ou membranas cirúrgicas. Após o reparo, o coração volta a funcionar, com restabelecimento do fluxo sanguíneo.


Foi esse procedimento que Théo enfrentou ainda bebê. Após a cirurgia, permaneceu internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) até a estabilização do quadro clínico. O período pós-operatório exigiu monitoramento constante da equipe médica e atenção integral à recuperação.


Para Bruna, receber a notícia de que o filho precisaria passar por uma cirurgia cardíaca foi um dos momentos mais difíceis vividos pela família. “Quando descobrimos que ele precisaria operar, o medo veio inevitavelmente. Ao mesmo tempo, eu sabia que era o melhor para ele e que estávamos amparados por bons profissionais”, conta.


A angústia aumentou no dia da cirurgia. “Entregar ele no centro cirúrgico tão pequenino, sabendo que existia a possibilidade de algo grave acontecer, foi horrível. As horas demoravam a passar”, relembra.


Após o procedimento, a mãe afirma que a experiência transformou a forma como a família enxerga a vida e a saúde. “Em meio a tudo isso, aprendemos a dar valor às pequenas coisas. Quem passa um tempo na UTI não sai como entrou”.

Mesmo após a cirurgia, crianças submetidas à correção de cardiopatias congênitas precisam continuar em acompanhamento médico. Segundo Giolana Mascarenhas, as consultas costumam acontecer com um mês, três meses, seis meses e um ano após o procedimento. Depois desse período inicial, quando não há defeitos residuais ou outras complicações, o acompanhamento passa a ser anual. Nesses casos, a expectativa costuma ser de desenvolvimento saudável e rotina comum. “No caso do Théo, ele pode brincar, correr, pular. Tudo normal”, afirma a especialista.


A energia que antes preocupava pela falta de fôlego agora aparece nas brincadeiras e corridas dentro de casa. Para a família, cada avanço passou a ser comemorado como símbolo de superação.


IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO PRECOCE


Especialistas alertam que o diagnóstico precoce continua sendo um dos principais desafios no cuidado de crianças com cardiopatias congênitas. O acesso a exames especializados, encaminhamento rápido e estrutura hospitalar adequada ainda não chega da mesma forma a todas as famílias brasileiras, especialmente em regiões com menor oferta de serviços de alta complexidade.


Além disso, a informação também exerce papel decisivo. Reconhecer sinais como cansaço excessivo, dificuldade para mamar, suor intenso, baixo ganho de peso e coloração arroxeada pode acelerar a busca por atendimento médico. Quanto mais cedo a criança é avaliada, maiores tendem a ser as chances de tratamento adequado e recuperação satisfatória.


Por isso, médicos reforçam que consultas pediátricas regulares, atenção aos sintomas e acompanhamento durante a gestação são fundamentais para aumentar as chances de tratamento bem-sucedido. Histórias como a de Théo mostram que, quando há diagnóstico no tempo certo e acesso à rede de saúde, crianças com cardiopatia congênita podem superar os desafios iniciais e seguir a infância com qualidade de vida.


“Hoje, somos infinitamente gratos a Deus e aos médicos pela vida e saúde dele”, diz Bruna, mãe de Théo.

5 comentários


Tão pequeno, mas com uma história linda para contar… Ótima reportagem, Luiza.🥹

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Parabéns Luiza, muito bom esse texto.

Editado
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Baaaita texto Luuu❤️‍🩹

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Rayssa Farinon
Rayssa Farinon
06 de mai.

Assunto muito necessário!

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Boa reportagem, não sabia disso.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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