Das arquibancadas às pistas: a ascensão das mulheres no automobilismo
- Ana Luiza Bonini

- há 3 dias
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Em um esporte historicamente dominado por homens, mulheres desafiam barreiras estruturais e questionam a lógica de exclusão no automobilismo

Por Ana Bonini | Agência Abre Aspas
Durante décadas, o automobilismo foi considerado um território majoritariamente masculino. A imagem do esporte sempre esteve associada à força, agressividade, risco e competitividade, características historicamente ligadas aos homens. No Brasil, país que transformou Ayrton Senna, Nelson Piquet e Emerson Fittipaldi em símbolos nacionais, essa lógica se fortaleceu ainda mais. As mulheres quase nunca apareciam como protagonistas do automobilismo e, quando faziam, eram tratadas como exceção.
Essa realidade vem mudando, embora lentamente. Discutir a importância das mulheres no automobilismo brasileiro exige falar de representatividade, acesso, permanência, desigualdade estrutural e transformação cultural dentro de um dos esportes mais elitizados do mundo.
EXCLUSÃO AO LONGO DA HISTÓRIA
Historicamente, o esporte reproduziu desigualdades sociais mais amplas. O acesso das mulheres às práticas esportivas foi limitado durante décadas por discursos que associavam o corpo feminino à fragilidade e à incompatibilidade com o alto rendimento. No automobilismo, elas eram vistas apenas como espectadoras, acompanhantes ou figuras decorativas nas corridas. Estudos do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) sobre a inserção feminina no esporte mostram que, desde 2019, o interesse feminino pelo esporte cresceu em 49%.
No automobilismo, o problema começa muito antes da Fórmula 1 ou das grandes categorias nacionais. Ele aparece na base, quando há menos meninas no kart porque poucas são incentivadas a entrar nesse universo desde cedo. Enquanto meninos crescem cercados por carrinhos, videogames de corrida e estímulo para competir, as meninas, na maioria das vezes, não. O resultado dessa diferença aparece anos depois, quando as categorias profissionais continuam majoritariamente masculinas.
Portanto, não se pode tratar a ausência feminina no automobilismo como consequência de falta de talento ou interesse. O problema central é estrutural, já que as mulheres historicamente tiveram menos incentivo, menos investimento e menos oportunidades de permanência no esporte.
Ao mesmo tempo, existe um discurso recorrente que tenta justificar essa desigualdade por diferenças físicas. Em debates sobre mulheres na Fórmula 1, ainda aparecem argumentos de que categorias de elite exigiriam capacidades incompatíveis com as mulheres. No entanto, esse discurso ignora que o automobilismo moderno depende também de preparo técnico, estratégia, resistência mental e adaptação física do que de força bruta.
A baixa presença feminina nas categorias de elite não pode ser atribuída apenas a questões físicas, já que mulheres participaram de testes e competições importantes ao longo da história. O principal obstáculo está nas barreiras estruturais de um esporte marcado pelos altos custos e pela necessidade de patrocínio, redes de contatos e apoio financeiro contínuo. Segundo o UOL, para manter-se em categorias infantis é necessário desprender-se de mais de R$7 mil por mês. Em categorias graduadas e adolescentes esse número pode chegar a R$20 mil. Nesse cenário, mulheres ainda enfrentam menor credibilidade inicial por parte de equipes e patrocinadores, dificultando o avanço de suas carreiras.
Além disso, há uma questão simbólica importante. Durante décadas, o piloto foi construído como símbolo máximo de masculinidade. Coragem, liderança, agressividade e domínio técnico foram características constantemente associadas à figura masculina dentro do esporte a motor. Assim, além de aprender a competir, as mulheres precisavam enfrentar a pressão constante de provar sua competência o tempo todo.
Essa realidade ajuda a explicar por que a presença feminina no automobilismo ainda chama tanta atenção. Sua participação vira exceção, manchete ou curiosidade, indicando como o esporte ainda opera dentro de uma lógica desigual.
Ao mesmo tempo, seria injusto ignorar os avanços importantes das últimas décadas. No Brasil, as mulheres vêm ocupando espaços maiores dentro do esporte a motor, tanto nas pistas quanto fora delas. Pilotas como Bia Figueiredo ajudaram a romper barreiras históricas e se transformaram em referência para novas gerações. Primeira brasileira a correr na Fórmula Indy, Bia representa um símbolo importante de permanência e resistência dentro de um ambiente historicamente hostil às mulheres.
Outro exemplo relevante é Bruna Tomaselli, pilota que compete em categorias de turismo e que, em 2026, tornou-se a primeira mulher a vencer na NASCAR Brasil. Sua trajetória indica como as mulheres conseguem competir em alto nível quando possuem acesso a oportunidades concretas.
Além das pistas, as mulheres vêm ocupando espaços na engenharia, comunicação esportiva, gestão de equipes e áreas técnicas do automobilismo. Essa transformação é importante porque muda quem pilota os carros e quem participa das decisões sobre o esporte.
É difícil imaginar que um espaço também pertence a você quando nunca houve alguém parecido com você nele. Durante muito tempo, meninas cresceram consumindo automobilismo sem se enxergar dentro dele.
As mulheres apareciam nas transmissões como modelos de grid, assistentes de palco ou personagens secundárias.
Estudos sobre representação feminina na publicidade automotiva mostram que a imagem da mulher no setor foi historicamente associada à estética, sensualidade e passividade. Em pesquisa realizada pelo Centro de Recursos Computacionais, da Universidade Federal de Goiás, 97% das mulheres não se sentem representadas por propagandas automobilísticas. Dessas, 45% apontam objetificação; 26% dizem ser inexistente.
Mesmo quando o automobilismo passou a aceitar mais mulheres, elas continuaram sendo frequentemente enquadradas pela aparência antes da competência. Essa lógica ainda aparece hoje, e muitas recebem comentários que colocam em dúvida sua capacidade técnica ou reduzem suas conquistas a estratégias de marketing e diversidade institucional. Isso demonstra que o problema não é apenas quantitativo, mas cultural.
Nos últimos anos, iniciativas internacionais começaram a tentar corrigir parte dessa desigualdade histórica, como a F1 Academy, anunciada pela Fórmula 1 para a temporada de 2023, com o objetivo de ampliar o desenvolvimento de pilotas e aumentar a presença feminina nas categorias de base.
Outro exemplo é o programa FIA Girls on Track, que busca aproximar meninas do automobilismo desde cedo, oferecendo experiências práticas, oficinas e contato com áreas como pilotagem, engenharia e gestão esportiva. Essas iniciativas possuem papel importante porque atacam um dos principais problemas do esporte: a falta de acesso à base.
Ainda assim, essas ações também geram debates importantes sobre igualdade de gênero no automobilismo. A presença feminina não ameaça a tradição do esporte; pelo contrário, pode garantir sua renovação.
Quanto mais mulheres ocuparem as pistas, os boxes, as áreas de engenharia e os espaços de liderança, menos sua presença será tratada como exceção. O automobilismo só será plenamente competitivo quando o acesso à pista deixar de depender do gênero de quem sonha correr.

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