Da estética aos doces: a mãe que fez de sua cozinha um pequeno comércio
- André Felipe Tozzi

- 7 de jun.
- 7 min de leitura
Com queda de atendimentos e uma gravidez inesperada, Daiane escolheu o empreendedorismo como alternativa

Por André Felipe | Agência Abre Aspas
Imagine a cena: Um pequeno apartamento com uma cozinha enxuta e as bancadas lotadas de formas e produtos, enquanto a geladeira está lotada de doces em processo de resfriamento e quitutes sendo conservados, o cheiro de caramelo consome todo o prédio e atiça vizinhos com o aroma doce vindo da porta ao lado.
No celular, diversas notificações de possíveis clientes interessados nos pães de mel e pudins surgem em suas redes sociais, tudo acompanhado de uma criança cheia de dúvidas, fome, energia e necessitando uma forte presença materna.
Essa é a vida de Daiane Tozzi Gurtat, de 42 anos. Esteticista de formação, ela trabalhava havia anos na mesma clínica e levava uma vida estável e tranquila. Porém, em questão de um segundo, ou melhor, de um mês, viu tudo virar de cabeça para baixo com a chegada da pandemia de COVID-19. A clínica em que trabalhava acompanhou o fechamento geral de praticamente todos os comércios ao seu redor, enquanto a doença se expandia e os atendimentos diminuíram, até o lockdown total em meados de abril de 2020.
Apesar das muitas dúvidas e dificuldades, o pior da doença passou e o auge do fechamento encerrou, com o retorno de alguns comércios, lojas e escolas, mesmo com suas limitações. Todavia, uma informação extremamente relevante emergiu: uma gravidez inesperada, já que o casal não planejava ter outro filho após o nascimento de João Arthur, que na época tinha apenas oito anos de idade. Com os atendimentos em queda vertiginosa no período pós-pandêmico e um filho por nascer, a esteticista de formação decidiu voltar para um lugar familiar e retornar ao mercado de trabalho com um micro comércio focado na produção de doces, buscando renda empreendendo dentro de casa.
A realidade de Daiane e sua família não é incomum. Em pesquisa realizada em 2023 pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) revelou que 77% das mulheres no Brasil começaram a empreender após a maternidade. No geral, 70% das empreendedoras no Brasil são mães e grande parte revelou que começou a empreender por necessidade, como é o caso de Daiane e seu pequeno comércio.
A pesquisa é interpretada por Thaís da Costa, gestora de políticas públicas do Sebrae - PR e gestora do ‘Delas do Sebrae’, ambos na região Oeste do Paraná. Ela reforça o fator econômico como sonho, além da flexibilidade em horários. “Empreender é um sonho, mas, para mulheres, a oportunidade de empreender surge como possibilidade de autonomia financeira, além de uma forma de estar presente na criação dos filhos. Quando estamos no CLT, os horários são bem mais engessados, enquanto no empreendedorismo você encontra sua forma, seus horários. A gravidez pesa muito na rotina da mulher, até porque as maiores responsabilidades dentro de uma casa e de uma família acabam sendo da mulher, encontrando uma dificuldade muito maior na estabilidade trabalhista no pós-gravidez”.
Esse sonho, para algumas, se apresenta como necessidade. Segundo dados do sistema eSocial, obrigatório desde janeiro de 2020 para registro de demissões, e levantado junto a Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), entre 2020 e 2025, mais de 380 mil mulheres foram demitidas após a licença-maternidade. Além disso, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), quase metade das mulheres que retornam da licença-maternidade deixam o emprego após um ano e meio do retorno às atividades. Thais ainda reforça que, dentre os motivos, existe a dificuldade na manutenção dos horários de trabalho habituais, além da ausência de uma rede de apoio e a culpa materna de uma possível escassez na criação do filho.
EXPECTATIVAS E REALIDADES
Apesar das perspectivas positivas, esse tipo de empreendimento ainda apresenta riscos, especialmente em uma família possivelmente instável financeiramente após uma gestação. Ainda assim, em comércios de estrutura caseira e familiar, o apoio sempre conta, e as expectativas geralmente nascem altas. Daiane relata, por exemplo, que possuía a melhor perspectiva possível, tendo apoio da família e fazendo algo que gostava: “Pensava em ter uma renda que me ajudasse a continuar trabalhando e ajudar na renda de casa, que era o que precisávamos. Família e amigos gostavam, elogiavam e incentivavam a vender, recebi muito incentivo, não tenho do que reclamar”.
Entretanto, a realidade costuma ser diferente. A produção de doces artesanais frequentemente é subestimada pelos consumidores, que nem sempre consideram aspectos como o tempo de produção, os esforços de divulgação, a definição dos preços e a qualidade envolvida na execução do serviço.
Como resultado, o valor e a complexidade desse trabalho muitas vezes não recebem o devido reconhecimento por parte dos compradores. “Produtos assim exigem muitos processos para que cheguem perfeitos para o cliente, além das partes burocráticas que envolvem a qualidade dos produtos, coisas difíceis dos clientes terem dimensão do processo até enfim chegar nele”, reforçou a empreendedora.

Na busca pelo comércio perfeito e diferenciado da concorrência, surgem os primeiros ruídos que, se não analisados com calma, podem culminar no fim precoce de um empreendimento caseiro. O erro principal não tem a ver diretamente com o produto oferecido, mas na forma em que ele será comercializado. Destacado por Thais, o principal desafio está na forma como as regularizações e licenças necessárias surgem de maneira inesperada em um cenário inicialmente idealizado como perfeito. Muitas vezes, os empreendedores esbarram no desconhecimento de uma legislação rígida, na falta de planejamento para a formação dos preços e na dificuldade de calcular os custos de produção em meio às despesas domésticas, como gás, água e energia elétrica. No comércio de alimentos, como no caso de Daiane, esses desafios se tornam ainda mais evidentes. Somam-se a isso as responsabilidades de gestão e produção do negócio, conciliadas com os cuidados com os filhos, transformando um empreendimento que surgiu como uma alternativa para otimizar o tempo após a gestação em uma fonte adicional de desafios no dia a dia.
Além disso, a falta de tempo e de experiência em gestão empresarial também dificulta a consolidação do negócio. Entre os principais desafios estão encontrar o equilíbrio entre a padronização dos processos, o posicionamento de mercado e a gestão financeira, bem como desenvolver estratégias de divulgação capazes de promover o produto de forma efetiva e alcançar o público-alvo. Sobre isso, Daiane, mesmo com divulgações pelo Instagram, controles de estoque e cálculos sempre visando a margem de lucro, cita a complexidade do processo minucioso de construção de um empreendimento desde o começo.
“Tudo é um grande conjunto, além de ter tudo calculado, precisamos de atenção para a concorrência e para o mercado. O processo é difícil, e mesmo mantendo tudo na ponta do lápis para não ter prejuízo, ainda encontro dificuldades em certos pontos, principalmente na divulgação, marketing em geral”.
Embora o empreendedorismo feminino venha crescendo, o cenário empresarial dos últimos anos é preocupante. Segundo pesquisa do IBGE realizada em 2022, cerca de 60% das empresas ou microempresas não sobrevivem após cinco anos no Brasil, o que evidencia um contexto bastante desafiador. Em pesquisa realizada pelo ‘Delas’, maior programa de empreendedorismo feminino no Brasil, promovido pelo Sebrae, as mulheres representam cerca de 42% dos novos negócios abertos no Brasil, com 83% das mulheres empreendedoras do Paraná tendo começado do zero, em pequenos negócios e com recursos próprios.
Programas e redes de apoio, como os realizados pelo ‘Delas’, ajuda novas mulheres no ramo do empreendedorismo a desenvolverem competências técnicas e emocionais, além de ensinamentos sobre gestão e redes de relacionamento com outras empreendedoras, ajudando mulheres novatas e desorientadas a se posicionarem melhor em meio ao concorrido mercado do empreendedorismo, ainda mais em comércios abertos pós-gestação. “O Paraná foi o segundo estado do Brasil com mais inscrições para o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, desde ciência e tecnologia até os micronegócios, proporcionando que mulheres contem suas trajetórias no empreendedorismo a nível regional, estadual e nacional. Além das premiações e da visibilidade, o principal é a oportunidade que nós temos de impulsionar outras mulheres para servirem de inspiração para as que buscam empreender”, reforçou Thais, gestora do programa de empreendedorismo feminino do Sebrae.
REALIZAÇÃO EM CONSTRUÇÃO
No fim, o processo de amadurecimento do negócio se apresenta de forma lenta e gradual, muitas vezes, sequer resultando em uma renda considerável ou em um produto no qual o empreendedor se sente realizado em comercializar. “Ainda não posso chamar de realização pessoal. Apesar de gostar muito, comecei por pura necessidade após a dificuldade em me realocar no mercado de trabalho após a segunda gestação, mas entendo que ainda tenho muito a aprender e a crescer, esse é meu desejo no momento”, relembrou Daiane.
Mesmo assim, a coragem e admiração já surgem das pessoas mais especiais na vida dessas mulheres: os filhos. No caso de Daiane, o filho João Arthur, de 13 anos, aparece como maior apoiador e maior fã, lembrando do começo da mãe e de como nunca teve dúvidas que daria certo. “Quando soube que minha mãe iria trabalhar com confeitaria fiquei tranquilo e concordei com ela, pois desde sempre os doces que ela faz são os melhores que eu conheço. Além disso, minha mãe lidou de uma maneira muito boa e tranquila, com mais tempo para adaptar nossa rotina para a chegada do meu irmão. Tendo minha mãe em casa, tudo ficou mais tranquilo”.
Assim como no caso de Daiane, a presença como mãe mudou, mas trouxe a carga extra de trabalho, mudança de rotinas, horários misturados e a inevitável pressão por renda. Existem inúmeros altos e baixos nesse processo tão desafiador. A vontade de crescer e transformar o negócio em algo extremamente rentável costuma ser imediata, e a persistência ao longo do processo é desafiadora. Ainda assim, nada se compara à validação do esforço de um trabalho feito com amor e dedicação, algo que toda mãe já aprende a fazer desde os primeiros dias da gestação. O pudim já esfriou, o filho inquieto precisa de atenção e as encomendas já foram respondidas e agendadas, enquanto permanece a luta de uma mãe para transformar o pequeno comércio de doces em um caminho de trabalho, renda e presença familiar no pós-gravidez.

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