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Custos em alta: loja familiar completa 20 anos de resistência em Medianeira

Com aumento de aluguel, energia e fornecedores, a Real Variedades reorganiza estoque, preços e atendimento para manter o caixa sem afastar clientes


Marta Carvalho e Valmir Antônio Kuhn, proprietários da Real Variedades, no centro de Medianeira (PR), acompanham pedidos e ajustes do negócio familiar que mantêm há cerca de 20 anos | Crédito da foto: Lucas Carvalho
Marta Carvalho e Valmir Antônio Kuhn, proprietários da Real Variedades, no centro de Medianeira (PR), acompanham pedidos e ajustes do negócio familiar que mantêm há cerca de 20 anos | Crédito da foto: Lucas Carvalho

Por Lucas Carvalho | Agência Abre Aspas


No início da manhã, antes de a Real Variedades receber os primeiros clientes, as notas fiscais já disputam espaço com bolsas, acessórios e pedidos de impressão no balcão da loja, no centro de Medianeira (PR). Marta Carvalho e Valmir Antônio Kuhn conferem reajustes de fornecedores, aluguel e reposição de mercadorias. A decisão se repete a cada compra: repassar parte do aumento ao preço final ou reduzir a margem para manter o cliente.


A rotina do casal se aproxima da realidade de muitos pequenos empreendedores brasileiros que enfrentam a alta dos custos e a redução do poder de compra da população. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação no país, acumulou alta de 4,26% em 2025. Na prática, comerciantes afirmam sentir aumentos maiores em despesas como energia elétrica, aluguel, transporte e reposição de mercadorias.


No Paraná, o comércio varejista teve desempenho positivo no primeiro quadrimestre de 2025. Dados da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE, apontam alta de 2,4% no volume de vendas do comércio varejista paranaense entre janeiro e abril, acima da média nacional, de 2,1%. O resultado, porém, não elimina a pressão sobre pequenos negócios. Para comerciantes do interior, vender mais nem sempre significa ganhar mais, porque aluguel, energia, frete e fornecedores também entram na conta.


A Real Variedades ajuda a contar esse cenário. Com Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) ativo e três funcionários, a empresa nasceu há cerca de 20 anos, quando Marta decidiu abrir o próprio negócio após ser demitida da empresa onde trabalhava. Ao lado do marido, Valmir, ela transformou a iniciativa em uma empresa familiar que precisou mudar de rota várias vezes para acompanhar o mercado.

Da fotografia às variedades


Nos primeiros anos, a principal atividade da empresa era a fotografia. Casamentos, aniversários, batizados, formaturas e outros eventos garantiam agenda cheia em quase todos os finais de semana. O casal investia em equipamentos fotográficos, filmadoras e serviços de revelação, construindo uma clientela fiel na região.

“Era muito movimentado. Como não existia essa facilidade de hoje, em que todo mundo tem celular com câmera boa, as pessoas contratavam fotógrafo para tudo”, relembra Marta.


Durante anos, a fotografia sustentou boa parte do faturamento da empresa. Serviços como revelação de filmes fotográficos, impressão de álbuns e cobertura de eventos representavam parcela importante da renda do negócio. Com a popularização dos smartphones e das câmeras digitais, a procura começou a diminuir. Equipamentos antes essenciais passaram a ser usados com menor frequência, enquanto as imagens passaram a ser armazenadas e compartilhadas digitalmente. Mesmo assim, a fotografia ainda manteve relevância até a pandemia de Covid-19, em 2020.


Com eventos cancelados e restrições de circulação, a principal fonte de renda da empresa praticamente desapareceu. A loja ficou fechada por cerca de dois meses, e o casal recorreu às reservas financeiras para manter aluguel, energia elétrica e outros custos fixos em dia. Segundo Marta, os reflexos da pandemia permaneceram por cerca de dois anos.


A recuperação começou quando um mercado da cidade procurou a empresa para produzir barreiras de acrílico destinadas à proteção de funcionários e clientes. Até então, Marta e Valmir já atuavam com comunicação visual, produzindo placas, fachadas e banners, mas nunca haviam trabalhado com esse tipo de material. O pedido abriu uma nova frente em um momento crítico.


Além de atender uma demanda emergencial, a produção das barreiras permitiu que a empresa voltasse a operar vinculada ao fornecimento de itens considerados essenciais. Depois vieram outros pedidos, como placas de orientação e materiais informativos para adequação às medidas sanitárias. A adaptação garantiu faturamento em um período de retração econômica e ajudou a manter o negócio aberto. “Foi um período muito difícil. Tivemos que nos adaptar rapidamente para continuar trabalhando”, recorda Valmir.

A mudança levou à ampliação do mix de produtos. A Real Variedades comercializa bolsas, acessórios femininos, bijuterias e itens diversos, mas mantém serviços que geram fluxo constante, como fotos 3x4, impressões, digitalizações, escaneamento de documentos e atendimento de lan house.


No início de cada ano, por exemplo, a procura por fotos para matrículas escolares, carteirinhas de transporte e processos de contratação cresce. Esses serviços ajudam a garantir parte do fluxo de caixa da empresa.


Apesar da diversificação, os produtos considerados não essenciais ficam mais vulneráveis quando a renda das famílias diminui. Marta explica que, em períodos de aperto financeiro, os consumidores priorizam gastos básicos e adiam compras que não são urgentes. Itens de presente e acessórios registram queda mais acentuada, enquanto serviços ligados a documentos, identificação e demandas profissionais mantêm procura mais estável. “As pessoas priorizam comida, aluguel e remédio. Ninguém vai deixar de comprar o essencial para levar uma bolsa ou um brinco. A gente sente muito essa queda nas vendas”, afirma.


Segundo ela, muitas clientes passaram a pesquisar mais antes de comprar ou optam por produtos mais baratos. Mercadorias que antes tinham saída rápida permanecem mais tempo nas prateleiras, o que exige mais cuidado no planejamento das compras.

Valmir explica que o principal desafio é administrar os aumentos sem transferir todo o peso ao consumidor. “Tudo sobe: aluguel, fornecedor, energia, transporte. Só que o cliente também está apertado. Então, muitas vezes, a gente reduz a margem de lucro para conseguir continuar vendendo”, relata.


Na prática, isso significa absorver parte dos reajustes. O frete das mercadorias pesa cada vez mais no orçamento, e os aumentos recebidos dos fornecedores nem sempre são repassados integralmente ao consumidor.


Para diminuir os custos, o casal passou a buscar fornecedores mais próximos, comprar em atacado sempre que possível e reduzir a quantidade de alguns pedidos. Ainda assim, a decisão sobre reajustar preços continua sendo uma das mais difíceis. “Se aumenta muito, o cliente reclama ou deixa de comprar. Mas, se segura demais, a loja também não consegue sobreviver”, resume Valmir.


A CONTA QUE PESA NO BALCÃO


A dificuldade enfrentada pela Real Variedades não é isolada. Segundo levantamento divulgado pelo Sebrae em fevereiro de 2026, com base no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), as micro e pequenas empresas responderam por 80,5% do saldo de contratações formais no Brasil em 2025. O dado ajuda a dimensionar a importância desse tipo de negócio para a geração de renda e para a movimentação da economia local.


De acordo com a consultora do Sebrae/PR Daniele Doneda, muitos pequenos negócios tomam decisões apressadas quando os custos aumentam, principalmente pela falta de planejamento financeiro. “O principal erro é tomar decisões sem analisar os motivos que estão causando o aumento dos custos. Muitas vezes, o problema poderia ser resolvido com uma análise financeira mais detalhada, considerando desperdícios, logística, custos fixos e variáveis”, explica.


No caso das lojas de variedades, a especialista destaca que é preciso acompanhar a margem de lucro de cada produto e avaliar o desempenho das vendas.

“O empreendedor precisa saber exatamente quanto custa manter cada item no estoque e qual retorno ele gera. Reajustes de preços devem ser feitos com base nos custos e no comportamento do mercado, e não somente pela percepção de que tudo ficou mais caro. Além disso, produtos com baixa saída e pouca rentabilidade devem ser reavaliados para evitar que capital fique parado no estoque”, orienta.

Segundo a especialista, outro problema comum é recorrer rapidamente a empréstimos com juros elevados para manter o capital de giro, o que pode agravar a situação financeira da empresa. A observação é uma orientação geral para pequenos negócios e não se refere ao caso da Real Variedades.


Ela destaca que o reajuste de preços deve considerar concorrência, custos internos e valor entregue ao cliente. Em alguns casos, alternativas como renegociação com fornecedores, mudanças na forma de pagamento ou cobranças específicas de entrega e embalagem podem reduzir impactos sem afastar consumidores.


Daniele reforça que a gestão financeira passou a ser indispensável para pequenos negócios que desejam permanecer competitivos. “Monitorar estoque, acompanhar a rotatividade dos produtos e entender quais itens realmente trazem lucro é fundamental. Muitos empresários acreditam que o problema está apenas nas vendas baixas, quando, na verdade, a dificuldade está na formação incorreta do preço”, afirma.


Na Real Variedades, o controle do estoque é feito por meio de sistema e pela experiência acumulada ao longo de duas décadas de atuação. Marta e Valmir acompanham diariamente quais produtos apresentam maior saída e ajustam os pedidos conforme a resposta dos consumidores.


VITRINE DIGITAL E BOCA A BOCA


Enquanto tentam equilibrar as contas, a presença digital também entrou na estratégia da empresa. Boa parte dos pedidos é recebida pelo WhatsApp, que se tornou um dos principais canais de atendimento e venda. Nas redes sociais, funcionários mantêm publicações com fotos de produtos, serviços e trabalhos realizados, principalmente no Instagram, por meio de postagens e stories.


Apesar disso, os retornos diretos pela plataforma ainda são limitados e representam apenas uma pequena parcela das vendas. A empresa chegou a investir em anúncios pagos nas redes sociais. A iniciativa aumentou a visibilidade das publicações e gerou novos contatos e pedidos, mas os resultados não compensaram o valor investido.

Diante disso, o negócio continua apostando principalmente no relacionamento com clientes já conhecidos, nas indicações e no atendimento direto pelo WhatsApp. “A gente posta bastante, tenta divulgar, mas o resultado maior ainda vem do boca a boca. Muitas pessoas chegam aqui porque alguém indicou”, conta Marta.


No caso da Real Variedades, o digital funciona mais como vitrine do que como canal principal de venda. As redes sociais ajudam a mostrar produtos e promoções, mas a decisão de compra continua ligada à confiança, à indicação e ao atendimento presencial.

A professora Gabriela Cunha, cliente da loja, afirma que percebeu o aumento dos preços nos últimos anos e passou a pesquisar mais antes de comprar. Mesmo assim, continua frequentando pequenos comércios da cidade por valorizar o atendimento e a relação de confiança construída ao longo do tempo. Ao longo dos anos, ela já utilizou diferentes serviços oferecidos pela empresa, desde impressão de trabalhos pessoais até a compra de acessórios. Recentemente, comprou um colar e um par de brincos para usar em um casamento. Segundo ela, a possibilidade de encontrar diferentes produtos e receber um atendimento próximo influencia na decisão de compra. “Hoje a gente pensa mais antes de comprar qualquer coisa. Mas eu ainda prefiro comprar em lojas menores porque o atendimento é diferente e muitas vezes eles tentam ajudar o cliente”, comenta.


Manter a empresa funcionando exige dedicação que vai além do horário de atendimento. A Real Variedades abre de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 12 horas e das 13h30 às 18 horas. Aos sábados, o expediente segue até o meio-dia. Marta e Valmir dividem compras, pagamento de contas, organização financeira e decisões administrativas. Os funcionários auxiliam no atendimento ao público, enquanto toda a equipe participa da rotina diária da loja. “Cada dia a gente tenta uma coisa diferente, busca novas ideias e vai lutando para continuar. O pequeno empresário trabalha muito para sobreviver”, afirma Marta.


Ao final de mais um dia de trabalho, as notas fiscais continuam sobre o balcão, ao lado de mercadorias recém-chegadas e contas que ainda precisam ser pagas. Diante de cada reajuste dos fornecedores, Marta e Valmir voltam ao mesmo dilema que acompanha muitos pequenos comerciantes: aumentar os preços e correr o risco de perder clientes ou reduzir a margem de lucro para manter as portas abertas.


Na Real Variedades, fazer história não aparece como slogan. Está nas decisões repetidas todos os dias, no preço recalculado, no produto que muda de prateleira, no WhatsApp respondido entre um atendimento e outro e no cliente que volta porque confia no casal.

Ao apagar as luzes da loja, Marta e Valmir já levam para o dia seguinte a mesma tarefa que sustentou o negócio por 20 anos: adaptar o comércio sem perder o vínculo com quem compra ali.

Interior da Real Variedades, em Medianeira (PR), onde acessórios, bolsas e serviços como fotos 3x4 e impressões dividem espaço com as decisões diárias sobre estoque, preço e margem | Crédito da foto: Lucas Carvalho
Interior da Real Variedades, em Medianeira (PR), onde acessórios, bolsas e serviços como fotos 3x4 e impressões dividem espaço com as decisões diárias sobre estoque, preço e margem | Crédito da foto: Lucas Carvalho

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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