Como uma professora deixou a docência e transformou a família no motor de um comércio local
- Kamilly Felipe

- há 3 dias
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Panificadora de Cascavel transformou crise em oportunidade e se tornou exemplo prático de empreendedorismo feminino e inclusão produtiva

Por Kamilly Felipe | Agência Abre Aspas
Deixar a estabilidade e o propósito da sala de aula nunca esteve nos planos de Leda. Aos 46 anos, formada em pedagogia e com uma trajetória consolidada no ambiente escolar em Cascavel, no Oeste do Paraná, ela via seu futuro intimamente ligado ao desenvolvimento de crianças. No entanto, o roteiro da vida familiar mudou abruptamente quando o desemprego bateu à porta de seu marido, Wuender, de 47 anos. Diante da urgência de manter as contas em dia e garantir o sustento da casa, o casal viu na dor da crise a faísca para o nascimento de uma nova história: a abertura de uma panificadora e mercearia de bairro.
O começo foi marcado pelo desbravamento absoluto. Sem capital robusto para grandes investimentos e desprovidos de conhecimentos técnicos profundos no ramo da panificação, a escolha do modelo de negócio obedeceu a um critério extremamente pragmático. "Partiu a ideia de abrir um negócio onde nós pudéssemos ser donos e que não exigisse muita prática inicial ou conhecimento prévio profundo, para que fôssemos aprendendo com o tempo", relata Leda. A panificadora nasceu, assim, sob o signo do aprendizado compartilhado em tempo real.
ADEUS À SALA DE AULA
O que começou como uma alternativa emergencial de renda, rapidamente ganhou corpo. À medida que os moradores do bairro transformavam o balcão da panificadora em um ponto de parada diário, a demanda escalou de forma acentuada. Durante meses, Leda dividiu-se na exaustiva rotina de lecionar e administrar o novo comércio. O ponto de ruptura e a definitiva "virada de chave" profissional tornaram-se inevitáveis quando a sobrecarga ameaçou o andamento do negócio e a integridade da própria família.
"Conforme foi dando certo e a demanda aumentando, eu não consegui conciliar a escola com a panificadora. Tomei a decisão de cuidar do meu próprio negócio", conta a pedagoga. A decisão de abrir mão da docência não foi fácil, mas desenhou-se como um movimento estratégico e de companheirismo. Era preciso fortalecer a estrutura para que o negócio prosperasse sem a necessidade de contrair custos com contratações externas no início, evitando também que o trabalho esmagasse Wuender em uma jornada solitária.
Além da dedicação operacional, a transição de carreira redefiniu a qualidade de vida e a autonomia da família. Embora a panificação exija uma rotina intensa, Leda pontua que o negócio expandiu os horizontes financeiros. A renda conquistada no balcão passou a viabilizar conquistas concretas, desde bens materiais até momentos de lazer e viagens que antes pareciam distantes.
CONFIANÇA E ENGRENAGEM FAMILIAR
Hoje, com sete anos de estrada completados, a Panificadora da Leda opera por meio de uma engrenagem 100% familiar. Na equipe de frente e de bastidores, além de Leda e Wuender, estão as irmãs da proprietária e os filhos do casal: Ana Clara, de 22 anos - que divide sua atuação como tatuadora e nail designer com os conhecimentos em design gráfico aplicados à identidade e ao marketing digital da empresa - , e Eduardo, de 15 anos, estudante que auxilia na organização diária e no caixa.
A opção por manter um quadro de colaboradores estritamente familiar responde a duas grandes urgências dos pequenos negócios de bairro: a absoluta relação de confiança e as restrições financeiras do início da jornada.
"Primeiro, porque temos muita confiança na família e o comprometimento e o cuidado são maiores", pontua Leda. Ela complementa revelando um cenário da base da pirâmide empreendedora brasileira. "O salário oferecido no princípio não era atraente para os outros. Apenas alguém da família poderia entender esse momento e confiar que, a longo prazo, as coisas melhorariam para ambas as partes".
POR TRÁS DO BALCÃO
A vivência prática do varejo de bairro desmistificou visões românticas sobre o significado de ser "dono do próprio nariz". Leda é categórica ao citar o peso invisível das responsabilidades. "A pior parte é o trabalho dobrado, os compromissos financeiros como boletos, funcionários, aluguel. Nós também não temos férias longas e não temos folgas. Mesmo doentes ou com dor, temos que trabalhar", desabafa.
Por outro lado, o empenho reflete-se na recompensa financeira direta e na emancipação da renda. A autonomia na construção do patrimônio e o aprendizado diário trouxeram uma profunda mudança de mentalidade. "Com isso, eu aprendi a respeitar profundamente quem tem o seu próprio negócio, a entender que nem todo empresário é rico, e aprendi a me superar todos os dias".
A história da família de Leda conecta-se diretamente aos dados do Atlas dos Pequenos Negócios do Sebrae. Representando cerca de 95% dos empreendimentos formais do país, os pequenos negócios são os grandes responsáveis pela retenção de riqueza e geração de renda nas comunidades, impulsionando a permanência e a sustentabilidade econômica nos bairros.
UNINDO MESA E TRABALHO
Para além dos indicadores de faturamento, o impacto mais profundo da panificadora deu-se dentro de casa, na formação e na visão de mundo dos filhos. Crescer acompanhando o suor e a resiliência dos pais transformou a percepção de Ana Clara e Eduardo sobre os conceitos de união e cooperação.
"Eu acho que tem sido vantajoso para nós em família", avalia Ana Clara. "Tem sido benéfico pois tem nos dado oportunidades de vivências e aprendizados que, talvez, nós não poderíamos ter tido de outra forma".
Eduardo, o caçula, recorda que apoiou o projeto desde o primeiro momento, embora reconheça o peso da rotina. "Desde que a ideia surgiu eu sempre gostei, mas nem sempre é fácil por conta da carga horária dos meus pais; às vezes as coisas saem do plano. Acho benéfico pelo fato das experiências que temos vivido em família, superando problemas juntos e também colhendo os frutos do nosso próprio trabalho", conclui o jovem.
A Panificadora da Leda, em sua simplicidade de comércio local em Cascavel, consolida-se como um exemplo vívido de inclusão produtiva. Mostra que o empreendedorismo feminino de bairro vai muito além do ato de comercializar mercadorias, trata-se de uma estratégia de sobrevivência, de reestruturação de vidas e, fundamentalmente, da transformação da família na engrenagem viva que move a economia local.

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