top of page

Através do espelho

Autocuidado se transforma em resistência no envelhecimento feminino


Envelhecer também é continuar se enxergando com carinho diante do espelho | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Envelhecer também é continuar se enxergando com carinho diante do espelho | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Por Raissa Rodrigues | Agência Abre Aspas


Ao entrar no quarto, a luz entrava timidamente pela janela enquanto minha avó puxava a cadeira devagar para se sentar diante do espelho. Era apenas um espelho pequeno, preso sobre uma cômoda antiga, já desgastada pelo tempo. Ao lado, havia um pente de dentes finos, um pó compacto quase no fim e um batom guardado na pequena prateleira junto ao espelho.


Ela abriu a gaveta com muito cuidado. “Eu não tenho muita coisa”, disse, quase se desculpando. Mas havia muita coisa ali. Talvez não em quantidade, mas em história. Enquanto segurava o batom nas mãos, minha avó parecia tocar também a própria juventude. O jeito de passar o batom nos lábios era lento, aprendido há décadas, já repetido tantas vezes que se tornou parte dela.


Durante muito tempo, as pessoas ensinaram as mulheres que envelhecer era desaparecer aos poucos. Primeiro das vitrines, depois das propagandas, depois dos elogios. Como se a beleza tivesse prazo de validade e como se as rugas fossem um aviso silencioso de que a sociedade já não olha mais para você da mesma forma.


Mas, diante daquele pequeno espelho, percebi que o autocuidado na velhice não nasce da tentativa de voltar a ser jovem. Nasce da vontade de continuar sendo vista, principalmente por si mesma.


Minha avó me contou que antigamente gostava de arrumar o cabelo até para ir ao mercado. Falava disso sorrindo, lembrando dos vestidos, dos sapatos guardados para ocasiões especiais e das tardes em que se preparava apenas porque queria se sentir bonita. Hoje, muitas dessas coisas ficaram para trás. A idade trouxe dores nas costas, cansaço e um ritmo mais lento. Ainda assim, antes de sair, ela passa um pouco de pó no rosto e penteia o cabelo cuidadosamente.


“Não é porque sou mais velha que não preciso me arrumar. Não gosto de parecer desajeitada”, falou.

A frase parece pequena, mas carrega um peso enorme. Existe uma diferença cruel entre envelhecer e ser abandonada socialmente. Muitas mulheres passam a vida inteira cuidando dos outros. Filhos, marido, casa, netos... e, quando envelhecem, sentem que deixam de ocupar espaço, como se a juventude fosse a única fase permitida para existir.


No mesmo dia, visitei minha outra avó. A penteadeira dela era maior. Havia mais maquiagem espalhada, perfumes organizados e muitas joias dentro de uma maletinha. Ela é mais nova, mais ativa, gosta de sair, conversar e se arrumar. Enquanto falava comigo, passava um lápis de olho preto olhando diretamente para o espelho.


“Eu gosto de me arrumar. Pelo menos um batom eu passo todos os dias. Gosto de me sentir bonita para mim”, disse.


Existe uma ideia equivocada de que mulheres idosas que gostam de maquiagem estão tentando “parecer mais novas”. Mas nenhuma das minhas avós falou sobre juventude. Nenhuma reclamou desesperadamente das rugas ou do cabelo branco.


Uma delas guarda apenas um batom. A outra coleciona maquiagem. Ainda assim, as duas compartilham o mesmo desejo silencioso de continuar se reconhecendo diante do espelho.

Existe uma solidão escondida no envelhecimento feminino que quase ninguém comenta. As propagandas vendem cremes anti-idade, tratamentos rejuvenescedores e procedimentos estéticos como se envelhecer fosse um erro que precisa ser corrigido. Quase nunca mostram mulheres velhas vivendo a beleza de maneira natural, humana e cotidiana. Talvez por isso o quarto das minhas avós tenha me ensinado mais sobre beleza do que qualquer propaganda já conseguiu ensinar.


No primeiro quarto, o pequeno espelho refletia uma mulher marcada pelo tempo, mas também pela resistência. No segundo, a penteadeira cheia mostrava que ainda existe alegria em escolher um batom antes de sair. Em ambos os lugares, o autocuidado aparecia como uma forma silenciosa de continuar existindo em uma sociedade que muitas vezes insiste em apagar mulheres depois de certa idade.


Quando uma mulher jovem se arruma, dizem que ela está se cuidando. Quando uma mulher idosa faz o mesmo, muitas vezes escuta que “não precisa mais disso”. Como se o direito de se sentir bonita diminuísse com a idade. Como se autoestima fosse privilégio da juventude.


Mas minhas avós me mostraram justamente o contrário. Uma delas ajeitou o cabelo antes da entrevista, mesmo dizendo que ninguém mais a visitava tanto. A outra escolheu cuidadosamente qual perfume usaria naquele dia comum. Pequenos gestos que talvez passem despercebidos para muita gente, mas que dizem muito sobre permanência. Envelhecer também é resistir ao apagamento.


Ao sair da casa delas, fiquei refletindo que talvez toda mulher mereça um espelho onde ainda consiga se enxergar com carinho, independentemente da idade. No fim, minhas avós não estavam falando apenas sobre maquiagem. Falavam sobre continuar existindo com delicadeza em um mundo apressado demais para enxergar mulheres velhas. E talvez seja justamente por isso que aqueles batons guardados com tanto cuidado pareciam tão importantes.


Comentários


  • Instagram
  • TikTok

Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

©2025 - Agência Abre Aspas - Todos os Direitos Reservados

bottom of page