Arquibancadas e redes: a história de Bárbara Lanzarin com a Chapecoense
- Rayssa Farinon

- há 2 dias
- 6 min de leitura
Jovem catarinense compartilha, nas redes sociais, a paixão pelo clube do oeste de Santa Catarina e mostra como transformou a torcida em trabalho

Por Rayssa Farinon | Agência Abre Aspas
Nas arquibancadas da Arena Condá, Bárbara Lanzarin aprendeu, ainda na infância, o que significa amar um clube de futebol. Foi ali, em seu primeiro contato com a Chapecoense, que nasceu uma paixão que atravessaria toda a sua vida. Hoje, a jovem catarinense compartilha, nas redes sociais, momentos de alegria, tristeza e tudo o que vive como torcedora. “Nasci em Chapecó, então consequentemente ia ter contato com a chape em algum momento da minha vida. Quando tive, era para ser, me apaixonei e assim foi, desde quando era criança”, explica Bárbara.
Sua trajetória mostra a importância de permanecer presente, mesmo nos períodos mais difíceis. Bárbara acompanhou de perto momentos marcantes da história recente do clube, como os rebaixamentos de 2019 e 2021 e, principalmente, a tragédia aérea de 2016, que vitimou 71 pessoas, entre atletas, comissão técnica, jornalistas e outros profissionais, e deixou seis sobreviventes.
Ela relata que, na época, foi extremamente difícil acreditar no ocorrido. Ainda assim, como outros torcedores, sentiu a necessidade de apoiar o time naquele momento delicado. Viveu o luto coletivo e, com o tempo, encontrou forças para voltar à Arena Condá, como fazia desde a infância, hábito que mantém até hoje. Segundo Bárbara, acompanhar o retorno dos jogos foi doloroso, pois foi nesse momento que a dimensão da tragédia se tornou ainda mais real.
“Foi um buraco. Acreditar, vivenciar, mas cada torcedor sabia da importância de estar ao lado do clube naquele momento, por mais difícil que fosse. Particularmente demorei alguns jogos pra conseguir ir na arena e estar “100% ali”, a mente estava distante mesmo enquanto estava presente fisicamente no estádio” comenta a torcedora sobre os sentimentos que tinha no momento de recomeço do clube.
Apesar das dificuldades, ela nunca deixou de acreditar na reconstrução do clube. Em alguns momentos, parecia que aquele seria o fim da Chapecoense. Hoje, na visão dela, o time ainda busca estabilidade financeira e enfrenta oscilações dentro e fora de campo.
Mais do que torcedora, Bárbara define sua relação com a Chapecoense como parte de quem ela é. A história do clube se cruza com a dela e, em muitos momentos, se confunde com a própria trajetória. Ao falar de si, inevitavelmente fala da “Chape”, como é carinhosamente chamada.
A presença de mulheres como Bárbara nos estádios reflete uma transformação no futebol. Se hoje elas ocupam as arquibancadas com mais visibilidade, é porque, durante décadas, precisaram lutar por esse espaço. Esse movimento começou a ganhar força com pioneiras como Dulce Rosalina, que em 1956 se tornou a primeira mulher a liderar uma torcida organizada no Brasil, segundo o livro Lugar de mulher é no futebol, lançado pela jornalista Daniela Araújo em abril de 2025.
Hoje, histórias como a de Bárbara mostram que esse espaço foi conquistado e ganhou novos sentidos, com presença, resistência e pertencimento.
Com o tempo, esse amor pelo clube também ganhou dimensão profissional. Atualmente, Bárbara produz conteúdo nas redes sociais, comentando jogos e compartilhando sua visão como torcedora. No Instagram, no perfil @falebabi, reúne aproximadamente 35 mil seguidores até a data desta entrevista, além de manter presença no TikTok, onde soma quase cinco mil seguidores.

Ela reconhece a responsabilidade de atuar como criadora de conteúdo, mesmo sem vínculo formal com o clube. Na sua visão, quem passa a influenciar a opinião pública na internet lida tanto com o carinho e o reconhecimento quanto com críticas, muitas vezes marcadas por discordância e desrespeito. “Recebo muitos comentários ruins. Muitas vezes sinto que discordam e procuram ‘erros’ no que eu digo por ser mulher e estar no futebol. Outros carregado de preconceito mesmo, como ‘vai lavar a louça’. Normalmente esses comentários são quando não conseguem falar nada além disso”, comenta.
Bárbara conta que recebe diariamente mensagens de torcedores, inclusive de pessoas que não moram em Chapecó, mas que acompanham seu trabalho e desenvolvem um carinho que se estende ao clube. Para ela, esse retorno é gratificante.
“Reconhecimento das crianças, no estádio, nas ruas, nas redes sociais, isso sempre é muito marcante”.
Manter o equilíbrio entre o lado profissional e o lado torcedor é um dos principais desafios. Durante os jogos, ela precisa produzir conteúdo, mesmo quando a emoção fala mais alto. Segundo Bárbara, essa experiência também fortaleceu sua conexão com outros torcedores, já que busca produzir materiais que representem sentimentos que sempre existiram na arquibancada, mas nem sempre foram retratados. Ela conta que recebe mensagens do tipo “ comecei a acompanhar a chape por sua causa” ou “voltei a acompanhar o clube por causa do seu trabalho” e nesses momentos entende a importância da sua presença na internet.
No início, uma das maiores dificuldades era conter as reações durante os jogos. Comemorar gols ou expressar plenamente a torcida nem sempre era possível. Situações como entregar o prêmio de melhor jogador da partida a atletas do time adversário também são, segundo ela, desconfortáveis. No primeiro jogo que fez a cobertura no campo, ela comenta que precisou controlar a emoção e as reações e conta que após o jogo comemorou que tinha conseguido equilibrar as emoções “na área mista dei um grito de felicidade” explica ela. Sobre as críticas que recebe nas redes, é direta: “Ignoro na maioria das vezes. Algumas dá para absorver, mas raramente são construtivas”.
Nos dias de derrota, o ambiente muda. Bárbara descreve um clima mais pesado, em que precisa cumprir seu papel profissional enquanto, como torcedora, gostaria apenas de se afastar e esquecer o resultado. Em alguns momentos, evita se posicionar para não se prejudicar, mas, quando necessário, afirma que busca equilíbrio entre razão e emoção.
REPRESENTATIVIDADE
A relação com o clube, segundo ela, só se fortaleceu com o tempo. Se antes não percebia o alcance do seu trabalho, hoje entende o impacto que tem ao representar outras pessoas. Ao receber mensagens e relatos de seguidores, passou a reconhecer a dimensão da sua presença no meio digital.
Bárbara, ou Babi, como é conhecida, representa meninas que sonham em trabalhar com esporte, mas ainda enfrentam receios diante de um ambiente historicamente marcado pelo preconceito. Sua trajetória mostra que esse espaço pode ser ocupado e transformado. Para ela, a presença feminina no meio esportivo é uma forma de resistência e de enfrentamento ao preconceito. Sua história também reforça que as mulheres podem e devem torcer como quiserem e estar presentes nos estádios.
A jovem conta que sempre sonhou em trabalhar com futebol e que, ao longo do tempo, esse sonho foi sendo lapidado. Como conselho para quem deseja seguir esse caminho, afirma: “É preciso focar e persistir. Aos poucos, o trabalho vai crescendo. Não desistam, mesmo diante das dificuldades”.
Ela pretende expandir ainda mais seu alcance, realizar a cobertura de diferentes times e viver profissionalmente do futebol.
As oportunidades começaram a surgir por meio de convites do Globo Esporte, durante os jogos do Campeonato Catarinense, e, posteriormente, convites da empresa Betano, nos jogos do Campeonato Brasileiro da Série A.
A torcedora explica que os dias de jogo exigem uma preparação completa, que envolve planejamento, criação de roteiros, gravações, edições e atenção aos detalhes. Geralmente, chega cerca de quatro horas antes do início das partidas para acompanhar os bastidores, observar o aquecimento dos atletas e registrar tudo. Após o apito final, edita os vídeos no menor tempo possível e publica o conteúdo ainda no mesmo dia, para não deixar o assunto “esfriar”.
Babi define a Chapecoense como força e vida. ”É a minha história inteira, o clube me ensinou a gostar de futebol e direcionou toda minha energia e vocação para isso. Por ser natural de Chapecó também, é minha raiz, meu berço”.
EQUILIBRANDO EXPOSIÇÃO E SENTIMENTOS
É quase impossível separar a Bárbara torcedora da Bárbara profissional. Essas duas dimensões se unem e formam alguém que realizou um sonho de infância e que, agora, busca conquistar novos objetivos. As duas compartilham o desejo de ver a Chapecoense em uma situação mais estável, tranquila e financeiramente equilibrada, sem o risco de novos rebaixamentos.
Bárbara afirma que, caso surja a oportunidade de trabalhar em outro clube ou mudar de cidade, seguirá sua carreira, mas sem deixar de ser torcedora. Segundo ela, isso faz parte de sua essência.
Bárbara afirma que, ao trabalhar com a produção de conteúdo, perdeu, em parte, a experiência de estar na arquibancada, algo que, para ela, é fenomenal. Por outro lado, ganhou a oportunidade de se aproximar do clube, dos bastidores e das pessoas que admira. Essa vivência também permitiu que ela entendesse melhor como funciona um clube de futebol. Segundo Bárbara, hoje ela consegue viver a paixão pelo time ainda mais “à flor da pele” e se sente realizada por experimentar tudo isso.
Ao ser questionada se já precisou defender o clube mesmo discordando de algum posicionamento, ela afirma que não. Segundo a criadora de conteúdo, procura sempre defender o que considera certo, independentemente de estar alinhada ou não com o clube.
Para ela, agir de forma contrária aos próprios princípios e valores não é uma opção.
Durante os jogos, o coração se divide entre o profissionalismo e o amor pelo clube. Enquanto assiste aos jogos na beira do gramado, Bárbara tenta se desligar do lado torcedora, mas ao mesmo tempo não consegue se desprender totalmente do sentimento que a levou até ali.

Comentários