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Além do peso: o despertar do lipedema e a jornada de Marcella por um mundo sem dor

Como o diagnóstico correto de uma condição crônica afasta comparações equivocadas com a obesidade e abre caminhos para o cuidado.


Entender as  marcas físicas do lipedema é o primeiro passo para afastar diagnósticos errados e buscar o tratamento adequado | Crédito da foto: Banco de imagem (Freepink)
Entender as  marcas físicas do lipedema é o primeiro passo para afastar diagnósticos errados e buscar o tratamento adequado | Crédito da foto: Banco de imagem (Freepink)

Por Heloyse Anjos | Agência Abre Aspas


Olhar-se no espelho é não se reconhecer o próprio corpo. Dedicar horas aos treinos e ver as pernas manterem um formato que parece não pertencer ao resto do tronco. Ouvir, desde a adolescência, que falta foco, que é culpa do açúcar ou que se trata apenas de celulite. Essa rotina de angústia resume a realidade silenciosa de muitas mulheres.


A doença foi descrita pela primeira vez em 1940 por médicos da Clínica Mayo, mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) só a incluiu oficialmente na CID-11, em vigor desde 2022. O lipedema é uma doença crônica e inflamatória do tecido adiposo que provoca o acúmulo desproporcional de gordura, principalmente nas regiões dos braços e pernas, atingindo quase exclusivamente o público feminino e tendo como marcas principais a dor constante, a facilidade para ficar com hematomas e a baixa resposta a dietas restritivas ou exercícios intensos.


Em entrevista publicada pelo portal G1, o cirurgião vascular e endovascular André Estenssoro, do Hospital Sírio-Libanês e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explicou que "no lipedema, a gordura se acumula de forma simétrica, preferencialmente nas regiões das pernas, e não atinge os pés".


DIAGNÓSTICO DO EXTERIOR 


A história da Marcella Petrochinski mostra a saga de quem precisou cruzar fronteiras para entender o que acontecia com o próprio corpo. No tempo em que morou fora do Brasil, ela viu suas dores serem minimizadas por diagnósticos incorretos de circulação, recebidos de um clínico geral em Portugal após a realização de exames solicitados pelo profissional.


"Quando morava em Portugal, fui diagnosticada erroneamente com varizes e retenção de líquido, embora minhas pernas tivessem manchas roxas de pancadas. Ao vir de férias para o Brasil, um angiologista me deu o diagnóstico correto de lipedema, e a partir da explicação dele tudo fez sentido", explica  Marcella. 


O alívio de finalmente dar um nome ao que sentia veio acompanhado de uma carga de sintomas e incômodos. A gordura do lipedema provoca dor ao menor impacto e deixa o corpo pesado no dia a dia de cada mulher que se torna portadora da doença.

"O principal sintoma que sinto no lipedema é o peso nas pernas, como se carregasse duas crianças, além de dores na parte de trás da coxa e muita dor ao toque quando está inflamado. Quando estava acima do peso, tinha muitos hematomas, mas com o tratamento eles agora aparecem de forma esporádica”, conta Marcella.


JULGAMENTO NA ADOLESCÊNCIA E SENTIMENTO DE CULPA


A falta de informação médica por tanto tempo isolou as pacientes em um ciclo de culpa que costuma começar muito cedo. De acordo com as diretrizes da Associação Brasileira de Lipedema, a doença possui um forte componente genético e hormonal, podendo surgir ou se agravar durante as grandes transições biológicas da mulher, como a puberdade, o uso de pílulas anticoncepcionais, a gestação e a menopausa.


Na adolescência, justamente quando a autoimagem está sendo construída, as mudanças desproporcionais dos quadris e das pernas costumam ser vistas de forma cruel pela sociedade e, muitas vezes, até mesmo dentro de casa como falta de vontade, desleixo ou sedentarismo. A cobrança cultural por um padrão corporal magro transforma o espelho em um terreno de guerra e gera cicatrizes psicológicas profundas. Sem saber que o próprio tecido de gordura está doente, essas jovens passam anos testando restrições alimentares extremas que agridem a mente, mas não mudam em nada as formas do corpo. Marcella recorda como essa pressão e o estresse.


“Antes de saber que era lipedema, a minha mãe me dizia na adolescência que eu tinha muita celulite e que tinha que reduzir o açúcar, o que me deixava muito mal. Na época, nem se falava na doença e ela não era reconhecida pela OMS. Isso afetou  muito a minha imagem, eu odiava o meu corpo”, relembra Marcella.


O RECOMEÇO E AS BARREIRAS DO TRATAMENTO 


Começar o tratamento para romper o ciclo de dor e de inadequação exige uma abordagem multidisciplinar, capaz de compreender que a mente precisa de tanto acolhimento quanto o corpo inflamado. O ponto de virada na trajetória de Marcella aconteceu justamente quando ela retornou ao Brasil e encontrou suporte médico e terapêutico adequado.


Por não ser amplamente coberto pelo SUS ou por convênios médicos, o acesso à saúde se torna um privilégio caro. Apesar do custo alto, Marcella buscou uma rotina mais saudável para amenizar os sintomas e ter mais qualidade de vida.


“Após o diagnóstico de lipedema, foquei em exercícios, saúde mental e alimentação limpa, sem açúcar e glúten. Embora o tratamento seja caro, com remédios de até R$ 1.200 e uma bota pneumática de R$ 2.500, hoje vivo sem dor, economizo comendo certo e estou na melhor fase da minha autoestima”, diz Marcella.


O PAPEL DA NUTRIÇÃO NO CONTROLE DO LIPEDEMA


Para tratar a condição de forma eficaz, o caminho vai muito além da estética ou de dietas milagrosas. Quem faz o alerta é a nutricionista Thaís Castanha, pós-graduada em nutrição funcional com oito anos de experiência clínica. Ela explica que a abordagem tradicional de contagem de calorias e restrições severas precisa ser revista: como a gordura da doença possui características inflamatórias e fibróticas, ela não responde ao défice calórico da mesma forma que a gordura comum da obesidade.


Segundo a especialista, o foco do tratamento muda completamente: sai a centralidade da balança e entra o gerenciamento estratégico da inflamação celular. É um cuidado que exige do leitor uma investigação minuciosa e dividida por fases, transformando a alimentação num dos pilares para devolver o conforto físico.


Antes de montar qualquer planejamento alimentar ou indicar mudanças de hábitos, o profissional de saúde precisa decifrar o mapa bioquímico da paciente. Os exames realizados em laboratório têm como principal objetivo avaliar a saúde metabólica, vascular e intestinal da mulher, identificando quais pontos exigem atenção clínica e quais nutrientes fundamentais estão em falta devido ao desgaste crônico provocado pela inflamação.  


“Os exames laboratoriais são essenciais para guiar o tratamento do lipedema, que é uma condição crônica e inflamatória. Na fase inicial, eles avaliam a saúde intestinal, a imunidade, os níveis de inflamação e estresse, a resistência à insulina e as funções do fígado e rins para estruturar o tratamento de forma correta”, afirma  a nutricionista Thais Castanha.


O desespero para uma melhora rápida acaba gerando ansiedade e se tornando um dos principais obstáculos. Emuma sociedade bombardeada por promessas de mudanças milagrosas nas redes sociais, as pacientes com lipedemafrequentemente se frustram ao notar que seu ritmo de evolução é diferente. O estresse crônico gerado pela comparação pode aumentar o estresse e dificultar a adesão ao tratamento. Por isso, a abordagem nutricional moderna humaniza o processo, ensinando a mulher a focar na constância do autocuidado.


O RESPEITO AO RITMO DE CADA MULHER


A ciência médica deu passos importantes recentemente para validar o sofrimento dessas mulheres. A publicação do primeiro consenso brasileiro sobre a doença estabeleceu parâmetros claros, reforçando a ideia de que dietas genéricas não funcionam. O plano alimentar precisa ser um aliado viável na vida da paciente, tendo como prioridade padrões que naturalmente oferecem proteção antioxidante para contribuir para a saúde vascular e reduzir o inchaço.


"A publicação do primeiro consenso brasileiro sobre o tratamento do lipedema reforça a importância de respeitar a individualidade e a fase de cada paciente. Tenho visto excelentes resultados com dietas de perfil cetogênico e no estilo mediterrâneo. São modelos que priorizam o que é mais natural, fornecendo mais antioxidantes por meio de frutas vermelhas, vegetais verdes-escuros e gorduras boas”, explica a nutricionista Thais Castanha.


CUIDADOS NO USO DE MEDICAÇÕES


O surgimento de canetas emagrecedoras e de novas tecnologias farmacológicas trouxe um fôlego para pacientes que antes tinham dificuldade de reduzir peso devido às travas hormonais do lipedema. Porém, o uso dessas medicações exige um alerta severo por parte dos nutricionistas. Como esses medicamentos reduzem drasticamente o apetite e atrasam a digestão, há risco real de a paciente comer menos do que necessário e perder massa muscular em vez de gordura inflamatória, o que prejudica o metabolismo a longo prazo.


“A tirzepatida revolucionou o tratamento do emagrecimento e do lipedema, mas não substitui a alimentação saudável e os exercícios. Como o remédio reduz o apetite e desacelera o esvaziamento gástrico, o plano alimentar deve ser bem estruturado e focado em proteínas e vitaminas para evitar desnutrição, perda de peso sem acompanhamento adequado e o reganho de peso”, relata a nutricionista Thais Castanha.


No fim das contas, a estratégia mais poderosa contra a inflamação e o peso no corpo é o retorno à alimentação básica, deixando de lado os ultraprocessados. Para Marcella, essa mudança eliminou suas dores crônicas e devolveu sua qualidade de vida, servindo de lição para o seu recado final a outras mulheres: a urgência de acabar com os julgamentos estéticos e autodiagnósticos de internet, trocando os palpites virtuais por acolhimento, empatia e real respaldo médico.



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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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