Ainda que eu... jamais sem o seu clamor
- Lucas Lobo

- 12 de jun.
- 3 min de leitura
Respostas que nunca estarão à altura daquilo que me foi entregue

Por Lucas Lobo | Agência Abre Aspas
Com cuidado, proponho algo que, em outro momento, eu talvez não pensasse ser capaz de escrever. Começo esta crônica no apagar das luzes, se é que ainda há tempo, depois de lamentar não conseguir racionalizar as forças que antes me devoravam a mente. Mas, se agora é a você que esse lugar pertence, nada parece mais justo do que tentar nomear o que há de mais honesto naquilo que os tempos religiosos chamariam de “espírito”.
Aprendi a gostar de sushi, poemas e Baudelaire. Aprendi sobre os artistas de jazz que você me apresentou. Aprendi a apreciar os versos de Carlos Drummond de Andrade e a reparar na beleza criada por cada estrofe que leio. Aprendi a me desmanchar, a chorar com paixão e a ouvir Racionais. Há muito mais que um mundo em você, e tenho a convicção de que passarei a vida em descoberta. Aproveito cada parte que encontro dessa alma tão viva e intensa, que me afoga e, ao mesmo tempo, me deixa em estado de encanto. Agora, devolvo a você o presente daquele tempo: o mesmo acesso que recebi quando mergulhei no seu mundo. Mergulho no infinito.
Tenho a impressão de que é impossível ser neutro em relação a você. Não porque você seja uma dessas pessoas que tomam o ambiente pela imposição, mas porque, por sua presença, por sua delicadeza ou por suas palavras, algo estimulante e destemido parece surgir de você e tomar os sentidos de quem passa. Você é uma multidão, cheia e gritante como um oceano guiado por forças magnéticas.
Não foi difícil amar. Na verdade, foi fácil demais. Seria impossível ignorar esse transbordamento, que nunca poderia ser só meu, embora eu comemore a compatibilidade dos nossos toques, das nossas perspectivas e da nossa sensibilidade. Por uma sucessão de encontros muito nossos, pude naufragar intensamente nessa presença. E, mesmo que você entenda minha aversão a determinações e generalizações pobres, como a própria ideia de inteligência, meu limite de recusa termina no instante em que você abre a boca para conversar comigo.
Sei o quanto conexão e pertencimento são difíceis e importantes para você. Não por acaso, por questões que escapam ao nosso controle, fomos colocados em uma luta cansativa por nossas formas de ver a vida. Ainda assim, não hesito em dizer que você precisa seguir nessa luta tão sua. Suas contribuições carregam a raiva e a devoção de que sentimos falta. Você encontrou os seus. Encontrou um mundo inteiro que anseia por transbordar na sua paixão. Sua paixão não é só um guia, é matéria dentro de você.
Estou certo de que essa paixão sustenta a força de tudo o que você é. Mais do que isso, ela aparece no modo como você consagra os próprios afetos. Parece natural a maneira como você percorre as coisas que ama e, delas, faz nascer análises ternas de ouvir, divagar e debater. É a mesma paixão que a aprisiona quando você percebe que jamais conseguirá alcançar todos os detalhes, todas as atualizações e todos os mundos que deseja. É também a paixão que não permite satisfação permanente diante do pouco de infinito a que temos acesso, e que alimenta o incômodo com tudo aquilo que ainda não conseguimos mudar.
Essa paixão me afeta diretamente. É por ela que continuei, que escrevo agora e que, por alguns instantes, deixei de lado as decisões que tomavam minha mente. É por ela que, no limite da humilhação a que um emprego poderia me submeter, poucas horas depois eu estava rindo com você. É por ela que, com os olhos tomados por lágrimas, você me agradecia e me odiava por Kaguya-hime. É por ela que conto todos os dias a mesma história dos meus animes ou das partidas de futebol preferidas. É por ela que choramos juntos ao som de Evinha em uma madrugada de Natal. Por ela, coisas pequenas tornaram-se nossas.
É por ela que aprendi a me apaixonar pelo mundo que eu tanto rejeitava, pelas pessoas com quem eu tanto brigava, pelos nossos ideais. Por ela, voltei a amar. E é por ela que este improviso se tornou o texto mais apaixonado que já escrevi. Tento imitar, com palavras, o que sua paixão me fez sentir naquele dia. O que escrevo é apenas uma fagulha perto do que você significa para mim.
É por essa paixão que você seguiu e seguirá lutando todos os dias. Lutaremos, ainda que eu me esvaia desta cidade ou perca o rastro dos meus próprios passos.

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