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Aceitação pela inteligência artificial e afetações no jornalismo

Responsabilidade pelo uso está principalmente nas padronizações que produzimos para serem reproduzidas


Não aceitação deve ser o primeiro passo para produção do senso crítico | Crédito da foto: Lucas Lobo
Não aceitação deve ser o primeiro passo para produção do senso crítico | Crédito da foto: Lucas Lobo

Por Lucas Lobo | Agência Abre Aspas


“Entre a promessa de eficiência e o temor pela perda de autenticidade, a inteligência artificial avança sobre a redação jornalística e redefine, silenciosamente, o fazer notícia. Não é só sobre automatizar tarefas, é sobre critérios editoriais e responsabilidade pública, pois cada texto gerado carrega escolhas que moldam a percepção do leitor. Nesse cenário, não é substituição pura e simples, mas transformação das rotinas e das competências exigidas dos profissionais, que passam a atuar como curadores e verificadores em um ambiente cada vez mais híbrido”.

Se não reparou, o parágrafo acima não foi redigido por mim ou por algum dos editores da Agência de Notícias Abre Aspas. Na verdade, não foi escrito por ninguém que tenha forma, corpo, mente e, quem sabe, alma. Um prompt porcamente feito, solicitando um parágrafo sobre o uso de IA em redação jornalística, foi suficiente. Bem cínico da parte desse robô, por sinal.

O Brasil é o terceiro país com maior número de uso diário de inteligência artificial, ficando atrás somente dos Estados Unidos da América (EUA) e da Índia. Dados de 2025, da OpenIA, empresa responsável pela operação do ChatGPT, divulgados pela Fundação Dom Cabral (FDC), apontam que 93% dos brasileiros se utilizam de alguma ferramenta com a tecnologia, mas somente 54% entendem o que significa o termo. A realidade que nos está entregue é basicamente de inércia. A IA é a eletricidade da era digital. De fato, sem rodeios, não existe operação alguma no mundo que não esteja condicionada pela tecnologia - isso, sem me referir somente à generativa, essa de criação de conteúdos a partir de solicitações. Dessa maneira, gostaria de me retirar da crítica simplista, que moraliza uma existência inevitável, assim como da complacência com o discurso batido de “uso enquanto apoio”. Para tal, prefiro separar este em três momentos: precisamos ler mais, precisamos sair das redes e precisamos encarar uma diversificação no texto jornalístico.


A CULPA É SUA


Honestamente, me entendo como um bom adorniano de mínimas leituras. Embora rabugento, a crítica sistêmica (ou seja, toda aquela que decide olhar para realidades postas e construídas socialmente) deve considerar afetações industriais impostas sobre as pessoas. Ao lado da rabugem, me permitam o desgosto para com um tempo de rejeição ao texto. Não é segredo o domínio da imagem desde seu advento. Susan Sontag sustenta por diversas vezes em “Sobre a fotografia”, de 1973, que a imagem é a verdade, é a comprovação. Não quero tratar a imagem como culpada única, afinal, ela própria carrega os aspectos formais que a tornam complexa. A imagem facilmente reproduzida dentro de espaços cibernéticos passou, sim, a suprimir o texto escrito. As redes sociais encapsularam a imagem como comunicação. Textos são enxutos. A leitura é desnecessária.

Em um país de população leitora sendo menor que 55% em relação à população geral, segundo divulgação do próprio Senado, a aceitação de todas as coisas passa a ser um condicionamento bastante evidente no cotidiano brasileiro. De onde surgiram as casas de apostas e por qual motivo aceitamos que elas mandassem no futebol? De onde saem tantos influenciadores milionários e por que seguimos engajando com eles? Notem, em toda esfera pessoal a falta de senso crítico impede que a aceitação seja negada. A IA, enquanto ferramenta facilitadora, entrega tudo aquilo que o condicionamento à aceitação exige: tempo poupado, esforço mental mínimo e explicações generalistas ao ponto de serem facilmente apreendidas. É um construto que se tornou fundamento base da mediação entre indivíduo e existência digital.

O que nos leva ao segundo ponto: sair, literalmente, da internet é guerra vencida. Sair simbolicamente é horizonte de luta. Dentro dessa aceitação, conteúdos que invalidam a legitimidade do estudo e, por consequência, da leitura, tomam forma bastante significativa. Não fosse o bastante, a própria operação das redes sociais está se direcionando para uma saturação dos espaços online, cada vez menos humanizados e mais automatizados. Não é de hoje que usuários conspiram e confabulam um momento em que os pontos de encontro digitais estarão completamente tomados por bots, IA’s e simulações de interação humana. Nesse ponto de vista, o retorno à realidade se faz um movimento político radical. Tendo em vista o condicionamento de aceitação produzido e a substituição das individualidades por algorítmos, viver em ambiente virtual seria o mesmo que viver em simulação. Estamos treinando essa simulação e construindo sua autonomia. O não entendimento da utilização de inteligência artificial para produções autorais é processo fundamental dessa marcha pela padronização, que pode ser entendida também como a supressão do que nos caracteriza e a instrumentalização das nossas personalidades.


A CULPA É NOSSA


Parece notória a causa e consequência para algo que podemos chamar de resolução. Ao menos uma mínima resolução, algo como contenção de danos. Se o próprio modus operandi da internet e dos mercados que influenciam seu comportamento é o de autoritarismo contra a individualidade, o papel do comunicador é o de resgate dela.

Claro que existem complexos que não cabem aqui nesse momento, como a perseguição ao jornalismo e a pós-verdade. Contudo, creio que devemos encarar o texto jornalístico como um desafio a ser superado. A estrutura de lide, a formulação de uma notícia e alguns gestos históricos da comunicação formal parecem defasados quando olhamos para a necessidade de individualidades mais coletivas.

Não me entendam mal, não solicito a idiotização de todas as coisas, que também produz a internet, assim como já a vemos criando raízes no jornalismo. Interesso-me por um novo fazer que se preocupe com os princípios básicos de novidade, atualidade, imparcialidade, ética, etc., mas que considere que a objetividade deverá ser tratada como algo que se modula em cada indivíduo (em cada produtor, em cada comunicador) e que não pode ser reproduzida por robôs que entenderam uma repetição estrutural.

A culpa também é nossa por aceitarmos que a padronização esteja funcionando como regra de produção. Devemos funcionar como incentivo ao texto autoral. “Sem passarinho, não há jornalismo possível”, disse Nelson Rodrigues. Complemento: sem passarinhos, nem jornalismo e nem verão.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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