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Abuso sexual infantil: marcas que chegam à vida adulta

Levantamento do Instituto Liberta e Datafolha aponta que um em cada três brasileiros sofreu algum tipo de agressão sexual na infância ou adolescência


O silêncio não apaga a violência nem interrompe seus efeitos na vida adulta | Crédito da foto: Raissa Silva Rodrigues
O silêncio não apaga a violência nem interrompe seus efeitos na vida adulta | Crédito da foto: Raissa Silva Rodrigues

Por Raissa Rodrigues | Agência Abre Aspas


Aos sete anos, S.P., que prefere ser identificada apenas pelas iniciais, ainda não tinha palavras para nomear o que acontecia quando visitava a casa dos tios. Enquanto assistia aos desenhos na televisão, vivia situações que só conseguiria compreender anos depois. O que, na infância, parecia confuso ganhou outro sentido na vida adulta, quando a depressão e o processo terapêutico a levaram a reconhecer que havia sido vítima de abuso sexual.


Hoje, décadas depois, as lembranças ainda a acompanham. A violência não ficou presa ao passado. Ela retornou no medo, na forma de se relacionar, na vigilância sobre as filhas e na sensação de que alguns lugares nunca foram totalmente seguros. A história de S.P. é uma entre muitas que permanecem escondidas atrás de portas conhecidas, em casas onde a criança deveria encontrar proteção, e não ameaça.


“Na época, eu não compreendia o que estava acontecendo. Só depois de mais velha, quando desenvolvi depressão, comecei a tratar esse trauma. Eu tinha medo de me relacionar com homens”, conta.

O SILÊNCIO QUE PROTEGE O AGRESSOR


A violência sexual contra crianças e adolescentes continua sendo uma das violações de direitos mais difíceis de enfrentar, porque costuma ocorrer em espaços privados e, muitas vezes, envolve pessoas próximas da vítima. O silêncio, nesses casos, não nasce apenas do medo. Pode vir da vergonha, da ameaça, da culpa imposta à criança ou da falta de adultos preparados para escutar sem duvidar.


Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) mostram que, em 2025, o Disque 100 registrou 37,6 mil denúncias e 75,1 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes. Nos quatro primeiros meses de 2026, foram mais de 32,7 mil violações sexuais contra menores de 18 anos, aumento de 49,48% em relação ao mesmo período do ano anterior. Como uma denúncia pode reunir mais de uma violação, os números também indicam a complexidade de cada caso atendido pela rede de proteção.


O abuso sexual infantil envolve qualquer prática de natureza sexual imposta a crianças ou adolescentes, com ou sem contato físico. Pode ocorrer presencialmente, em ambientes familiares, instituições, espaços públicos ou no meio digital. Em muitos casos, a violência é praticada por alguém que já circula na rotina da criança, o que dificulta a denúncia e amplia o impacto emocional.


QUANDO A INFÂNCIA FICA SEM PALAVRAS


Segundo levantamento do Instituto Liberta, encomendado ao Datafolha, um em cada três brasileiros afirma ter sofrido algum tipo de agressão sexual física ou verbal durante a infância ou a adolescência. O dado ajuda a dimensionar um problema que, durante muito tempo, foi tratado como assunto privado, quando deveria ser reconhecido como questão de proteção, saúde pública e responsabilização.


O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública também aponta a dimensão da violência. Em 2024, o Brasil registrou 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, o maior número da série histórica. Desse total, a maior parte dos registros foi classificada como estupro de vulnerável. O anuário também indica que a maioria das vítimas é do sexo feminino, que grande parte dos casos ocorre dentro de casa e que familiares aparecem com frequência entre os autores identificados.


Para S.P., o abuso não terminou quando a infância acabou. Mesmo após constituir família, as marcas permaneceram na memória e no cuidado com as filhas. “Depois de casada, me preocupava com minhas filhas. Eu tinha receio de elas irem a casas e locais onde havia homens. Sempre estava de olho nelas, onde iam e com quem estavam. Esse trauma, mesmo depois de muitos anos, ainda está presente na minha memória”, relata.


MARCAS NA VIDA ADULTA


A psicóloga Michelle Abdo explica que os impactos do abuso sexual infantil podem aparecer de diferentes formas ao longo da vida adulta. Ansiedade, depressão, baixa autoestima, transtorno de estresse pós-traumático, dificuldade de confiar em outras pessoas e sofrimento nas relações afetivas estão entre as consequências mais frequentes.


“Pessoas que sofreram abuso sexual na infância podem enfrentar diversos impactos na vida adulta. Esses efeitos incluem dificuldades emocionais, como problemas de autoestima, transtornos de ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático, além de desafios nos relacionamentos”, explica Michelle.


A especialista também aponta que a violência pode afetar a relação da vítima com o próprio corpo e com a sexualidade. “Na área da sexualidade, as vítimas podem experienciar falta de desejo sexual, aversão ao sexo, dificuldades em estabelecer intimidade e problemas de autoconfiança. É comum também que essas pessoas apresentem ansiedade intensa ou sensação de reviver o trauma durante a atividade sexual”, afirma.


CAMINHOS PARA A RECUPERAÇÃO


Embora as marcas possam permanecer por muitos anos, o acompanhamento especializado pode ajudar a vítima a reorganizar a própria história, reduzir a culpa e reconstruir vínculos. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das abordagens utilizadas no tratamento de traumas, especialmente por auxiliar na identificação de pensamentos e comportamentos associados à violência sofrida.


Em alguns casos, o cuidado psicológico pode ser associado ao tratamento medicamentoso, principalmente quando há depressão, crises de ansiedade ou outros quadros que comprometam a vida cotidiana.

O mais importante, segundo especialistas, é que a vítima encontre escuta, acolhimento e um espaço seguro para falar no próprio tempo.

SINAIS QUE PEDEM ATENÇÃO


Identificar sinais de sofrimento pode ajudar a interromper a violência. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, crises de choro, medo excessivo, alterações no sono, queda no rendimento escolar, regressões comportamentais e perda de interesse por atividades antes prazerosas devem ser observadas por familiares, escolas e profissionais de saúde.


Também podem surgir sinais físicos, como dores, infecções recorrentes, lesões, secreções, coceiras, hematomas ou outros indícios nas regiões íntimas. Nenhum sinal isolado prova a ocorrência de abuso, mas todos merecem atenção, escuta cuidadosa e encaminhamento à rede de proteção. Diante de suspeita, a criança não deve ser pressionada a repetir várias vezes o relato. O caminho adequado é buscar ajuda de profissionais e órgãos responsáveis.


COMO DENUNCIAR


Todo caso suspeito ou confirmado de abuso sexual contra criança ou adolescente deve ser denunciado. A proteção não depende de certeza absoluta por parte de quem observa. Se há indício, a rede de proteção precisa ser acionada.


·         Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos, de forma gratuita, anônima e 24 horas por dia;
·         Conselho Tutelar: atua na proteção de crianças e adolescentes em todos os municípios;
·         CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social): oferece orientação e acompanhamento às vítimas e suas famílias;
·         WhatsApp do Disque 100: (61) 99611-0100;
·         Órgãos policiais: Polícia Militar (190), Polícia Civil (197) e delegacias especializadas.

ROMPER O CICLO


Para muitas vítimas, o abuso sexual infantil não termina quando a violência cessa. Ele pode permanecer no corpo, nos afetos, nos medos e na forma como a pessoa passa a se proteger do mundo. Por isso, o enfrentamento precisa ir além da punição ao agressor.

É necessário fortalecer a escuta, ampliar o acesso ao atendimento psicológico e preparar escolas, famílias e serviços públicos para reconhecer sinais de violência.


Histórias como a de S.P. mostram que romper o silêncio não é simples, mas pode ser o início de uma reconstrução. Antes da manchete, do dado e da denúncia, existe uma pessoa tentando reorganizar a própria vida. E nenhuma criança deveria carregar sozinha uma violência que a sociedade inteira tem obrigação de impedir.




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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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