A reserva virou cinzas
- Juan Karlo Pagno

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Incêndio destruiu estoque, casa e reserva financeira de bicicletaria familiar em Cascavel e expôs como crédito, fornecedores e relações de confiança pesam na sobrevivência de pequenos negócios

Por Juan Pagno | Agência Abre Aspas
A porta da Casa das Bicicletas sobe antes das oito da manhã em Cascavel. Hilário Kussler, proprietário do local, já está na loja quando os primeiros clientes começam a chegar. Bicicletas para todas as idades ocupam a entrada do estabelecimento enquanto funcionários atravessam a oficina carregando caixas, pneus e peças. No fundo do espaço, o som das ferramentas se mistura ao movimento de quem chega para comprar, consertar uma bicicleta ou apenas cumprimentar a família.
Acima das bicicletas penduradas, partes do teto ainda permanecem abertas. Alguns buracos provocados pelo incêndio nunca foram totalmente fechados. Manchas escuras de fumaça seguem visíveis em pontos da estrutura da loja e na residência ao lado da bicicletaria, onde Hilário e a família vivem até hoje. As marcas permanecem seis anos após o incêndio que destruiu estoque, ferramentas, documentos e décadas de trabalho acumuladas dentro da empresa. “Ficou tudo cinza”, resume o empresário ao lembrar da destruição.
Na tarde de 7 de março de 2020, funcionários ainda trabalhavam dentro do barracão quando o fogo começou. Pouco tempo depois, a fumaça já podia ser vista de diferentes pontos de Cascavel. Dentro da loja, as chamas avançaram rapidamente pelo subsolo usado como depósito, onde estavam armazenados pneus, peças, bicicletas e outros materiais inflamáveis. Do lado de fora, moradores tentavam retirar móveis e eletrodomésticos das casas vizinhas enquanto equipes do Corpo de Bombeiros isolavam a rua para impedir que mais pessoas se aproximassem da estrutura.
Um bombeiro ouvido pela reportagem, que pediu para não ter o nome publicado, atuou na ocorrência e relata que a quantidade de borracha acumulada no local e a configuração do espaço dificultaram o controle das chamas. “O calor embaixo da edificação ficou muito grande. Foi um incêndio bem complexo”, relembra.
Com a estrutura comprometida, a prioridade deixou de ser salvar a bicicletaria e passou a ser impedir que o fogo atingisse os imóveis ao redor. Enquanto parte da equipe fazia o resfriamento lateral da construção, moradores ainda tentavam voltar para dentro das casas para retirar pertences pessoais. A equipe precisou administrar o conflito entre permitir que as famílias salvassem alguns bens e evitar que elas se expusessem ao risco de ferimentos. “Tinha muita gente querendo ajudar e acabou se tornando uma balança entre deixar a pessoa salvar alguma coisa ou protegê-la de se machucar”, afirma o bombeiro.
Horas depois, o estoque acumulado ao longo de quase três décadas havia desaparecido. Bicicletas montadas, ferramentas, lotes recém-chegados e documentos foram destruídos.
Para a família Kussler, o prejuízo não terminou na estrutura consumida pelas chamas. A principal reserva financeira da empresa estava ali dentro, concentrada no estoque que abastecia diariamente o negócio.

RECOMEÇAR SEM CAPITAL
Nos dias seguintes, a preocupação deixou de ser apenas controlar os danos da destruição. Sem mercadoria para vender e com fornecedores ainda para pagar, a família passou a tentar entender como continuaria funcionando. “A nossa reserva era o estoque”, afirma Gislayne Kussler, filha de Hilário e responsável pela administração da loja.
A família estima que o prejuízo tenha ficado em torno de R$ 5 milhões. O cálculo leva em conta estoque destruído, equipamentos, ferramentas, danos à estrutura e mercadorias que ainda nem haviam sido quitadas junto aos fornecedores. Segundo Gislayne, a estimativa também considera a valorização que bicicletas e peças tiveram nos meses seguintes, durante a pandemia, quando a procura por esses produtos aumentou. “Reserva para uma situação dessa nós não tínhamos. Nem pensávamos em ter porque mantínhamos o dinheiro girando dentro da própria empresa”, explica.
Parte da mercadoria destruída ainda não havia sido paga. O que desapareceu com o incêndio não era apenas patrimônio acumulado ao longo de décadas, mas o capital que sustentava o funcionamento diário da empresa.
Além das dívidas, havia outra preocupação imediata: os funcionários. Antes do incêndio, a Casa das Bicicletas empregava oito pessoas. Sem loja, sem estoque e sem previsão de retomada, a família precisou reduzir a equipe pela metade e manteve quatro funcionários.
Mesmo sem faturamento regular, os salários dos empregados que permaneceram continuaram sendo pagos. Uma das vendedoras suspendeu voluntariamente o recebimento de comissões durante três meses para ajudar a empresa a atravessar o período mais crítico. Depois da retomada das atividades, a equipe voltou a crescer com novas contratações. Ao mesmo tempo, a família precisava decidir rapidamente se encerraria as atividades ou tentaria reconstruir a bicicletaria no mesmo terreno onde quase três décadas de trabalho haviam sido destruídas.
A reconstrução começou antes mesmo de existir dinheiro para ela. Cerca de duas semanas após a destruição da loja, a família decidiu que não encerraria as atividades. Sentado entre bicicletas, ferramentas e peças acumuladas ao longo de décadas de trabalho, Hilário fala da decisão como quem nunca considerou outra saída. Quando perguntado se pensou em desistir, ele ri. “É a obsessão da bicicleta. Você aprendeu a fazer isso, vai mudar para quê?”. A resposta ajuda a explicar por que a reconstrução não foi apenas uma decisão financeira. Para a família, a bicicletaria também fazia parte da própria trajetória de vida.
Sem capital para reconstruir a loja original, a Casa das Bicicletas precisou recomeçar em espaços provisórios. O primeiro deles foi cedido por um empresário da cidade que, anos antes, também havia perdido uma empresa em um incêndio. Durante os primeiros meses, a família utilizou o barracão sem custos. “Pode ficar à vontade o que vocês quiserem aí”, recorda Hilário. Quando a situação começou a se estabilizar, o espaço passou a ser alugado.
A experiência comum aproximava duas histórias marcadas pela perda repentina de um negócio. Segundo Hilário, o barracão foi decisivo para que a empresa voltasse a respirar. “Esse foi o grande alavanco da coisa, que fez a gente respirar de novo”. Meses depois, a bicicletaria passou a funcionar em uma pequena sala alugada a algumas quadras do endereço original.
Foi nesse período que a relação construída ao longo de décadas começou a determinar a sobrevivência da empresa. Sem recursos para recompor imediatamente o estoque perdido, a confiança acumulada junto aos fornecedores tornou-se um dos principais ativos da bicicletaria. Alguns deles concordaram em suspender temporariamente cobranças e ampliar prazos de pagamento. A principal fornecedora da empresa congelou a dívida por seis meses. Segundo Gislayne, a decisão foi resultado de uma relação construída ao longo dos anos. “Sempre fomos clientes honestos, assíduos e fiéis a eles”, afirma.
A reconstrução também contou com a manutenção de parcerias financeiras anteriores ao incêndio. Angela Bayer, gerente do Sicoob em Cascavel, afirma que a cooperativa acompanhou a retomada da bicicletaria durante os anos seguintes à tragédia. Para ela, a empresa conseguiu reconstruir a operação e ampliar sua atuação no mercado após o incêndio.
Clientes e moradores também se mobilizaram. Uma campanha criada na plataforma Vakinha com o nome “Reconstrução da Casa das Bicicletas” arrecadou R$ 16.614 de 221 apoiadores. Embora insuficiente para compensar o prejuízo estimado em milhões de reais, a arrecadação se tornou uma das primeiras fontes de apoio recebidas pela família enquanto a empresa buscava formas de retomar as atividades.
A DEMANDA INESPERADA
A retomada coincidiu com uma mudança inesperada no comportamento dos consumidores. Poucos meses após o incêndio, a pandemia da Covid-19 alterou hábitos em todo o país e impulsionou a procura por bicicletas como alternativa de lazer, atividade física e transporte individual. Segundo levantamento da Aliança Bike, associação que representa o setor no Brasil, as vendas de bicicletas cresceram cerca de 50% em 2020 em comparação com o ano anterior.
Enquanto a família tentava reorganizar a operação em espaços provisórios, a demanda por bicicletas aumentava. O cenário não eliminou as dificuldades provocadas pelo incêndio, mas criou uma oportunidade inesperada para acelerar a recuperação da empresa.
Com academias fechadas e restrições de circulação, famílias passaram a buscar atividades ao ar livre. A demanda cresceu rapidamente, enquanto bicicletas e peças começaram a faltar no mercado. A escassez também foi percebida pela família Kussler. “Não tinha bicicleta que chegasse. Já tínhamos pouco e começou a faltar peça, mercadoria, tudo”, relembra Hilário.
O aumento da procura ajudou a empresa a voltar a girar justamente quando a reconstrução ainda dependia de crédito, fornecedores e espaços provisórios. Ao mesmo tempo, a alta demanda elevou o preço das bicicletas e componentes em todo o país, impactando diretamente o valor estimado das perdas provocadas pelo incêndio.

Mesmo com o crescimento das vendas durante o período, a recuperação financeira não aconteceu de forma imediata. A família precisou buscar empréstimos para financiar a reconstrução da empresa, e parte dessas dívidas ainda continua sendo paga. Os valores não foram divulgados pelos proprietários.
Segundo Gislayne, os recursos permitiram retomar as atividades, mas não foram suficientes para concluir todas as obras necessárias. A loja ainda possui reformas pendentes e limitações de espaço provocadas pela destruição.
Seis anos depois, os efeitos do incêndio ainda são visíveis. No teto do espaço reconstruído, alguns buracos abertos pelo fogo permanecem sem reparo. Na casa ao lado da loja, onde a família vive, marcas escuras de fumaça continuam espalhadas pelas paredes.
A permanência desses vestígios não é apenas consequência da falta de tempo. Ela reflete uma escolha feita ao longo dos anos de reconstrução. Entre recuperar a empresa e reformar a própria casa, a prioridade foi manter o negócio funcionando. “A casa onde eles moram ainda não foi totalmente reformada. A gente preferiu focar na empresa do que em nós”, conta Gislayne, com os olhos marejados.
FRAGILIDADE INVISÍVEL
Histórias como a da Casa das Bicicletas ajudam a mostrar a fragilidade estrutural de pequenos negócios brasileiros diante de perdas materiais e interrupções bruscas da atividade. Em muitos casos, a capacidade de reação depende menos de planejamento financeiro prévio e mais da adaptação imediata à sobrevivência cotidiana.
Segundo a consultora do Sebrae Paraná Danieli Clemente Doneda, esse padrão está relacionado à forma como grande parte dos pequenos empreendedores organiza suas decisões. “O empreendedor brasileiro executa antes de planejar”, afirma. Para ela, isso contribui para a baixa formação de reservas financeiras e para a dificuldade de estruturar mecanismos de prevenção, deixando empresas mais expostas a situações imprevistas.
No caso da Casa das Bicicletas, essa vulnerabilidade aparece de forma concreta: grande parte do capital da empresa estava imobilizada no estoque, que acabou destruído pelo incêndio, reduzindo drasticamente a capacidade de retomada imediata das atividades. Situações como essa são comuns em negócios que reinvestem continuamente os recursos na própria operação, sem margem de reserva.
A fragilidade também se estende à estrutura de funcionamento e segurança. De acordo com o Corpo de Bombeiros do Paraná, as medidas de prevenção contra incêndio variam conforme as características do imóvel e da atividade exercida, incluindo itens como extintores, sinalização e rotas de fuga, além de sistemas mais complexos em edificações maiores. Segundo o bombeiro que atuou no atendimento à ocorrência, pequenas empresas frequentemente enfrentam limitações para investir em estruturas adicionais de proteção, o que as leva a operar com recursos mais básicos de prevenção.
A organização interna da Casa das Bicicletas também mostra um modelo típico de empresa familiar, no qual a operação depende diretamente do núcleo doméstico. Gislayne é responsável pelo setor administrativo e pelo controle das rotinas financeiras; Ana Maria atua no atendimento ao público; um dos filhos responde pela manutenção e por demandas operacionais; e Hilário concentra a coordenação geral do negócio. Embora haja divisão de funções, a gestão permanece centralizada na família, com pouca separação entre estrutura profissional e dinâmica doméstica.
SEIS ANOS DEPOIS
Seis anos depois do incêndio que destruiu o estoque, parte da estrutura e a casa da família Kussler, a Casa das Bicicletas voltou a funcionar no mesmo terreno. A oficina retomou o movimento diário, com bicicletas na entrada e clientes circulando para serviços, compras e contato direto com a família que permaneceu à frente do negócio.
A reconstrução, porém, não significou um recomeço completo. Parte dos empréstimos feitos após o incêndio ainda está em pagamento, e reformas seguem em andamento no espaço, onde marcas da destruição permanecem visíveis em áreas do barracão.
Nesse intervalo, a rotina voltou a se estabelecer, mas sob condições ainda marcadas pelo episódio. A recomposição financeira ocorreu de forma gradual, enquanto a estrutura física e econômica da empresa segue em adaptação. É nesse contexto que Hilário Kussler resume a permanência no negócio: “É a vida da gente. Tem um propósito, então não poderíamos simplesmente abandonar”.
A frase não apaga as dívidas nem fecha os buracos ainda abertos no teto. Mas ajuda a entender por que a Casa das Bicicletas continuou de portas abertas. A reserva virou cinzas, e o que sustentou a retomada foi a combinação de trabalho familiar, crédito, confiança construída com fornecedores, apoio de clientes e uma decisão repetida todos os dias: reconstruir primeiro o negócio para que a família também pudesse seguir em pé.

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