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A imortalidade forçada de um ícone do terror moderno

O anúncio de "A Órfã 3" levanta o debate sobre a insistência da indústria em manter personagens de aparência infantil mesmo quando o corpo da atriz já não sustenta a mesma ilusão


Manter Isabelle Fuhrman como Esther levanta um dilema: a técnica e a nostalgia conseguem esconder o tempo? | Crédito da foto: Gshow


Por Kamilly Felipe | Agência Abre Aspas


O lançamento de "A Órfã", em 2009, consolidou um lugar próprio no imaginário do suspense contemporâneo. Sob a direção de Jaume Collet-Serra, o filme combinou drama familiar, tensão psicológica e uma das reviravoltas mais lembradas do gênero. Esther era uma vilã construída com precisão, e o desfecho no lago congelado parecia oferecer um ponto final adequado para uma história que já havia entregado ao público seu choque central.


No entanto, Hollywood, movida pela busca constante de rentabilizar marcas conhecidas, preferiu reabrir uma narrativa que parecia concluída. O encerramento forte do primeiro filme acabou transformado em ponto de partida para uma franquia discutível, sustentada pela tentativa de manter viva uma personagem cuja força dependia, em grande parte, do impacto provocado em sua primeira aparição.


Ao assistir a "A Órfã 2: A Origem", é possível encontrar momentos de entretenimento, especialmente porque o roteiro assume um tom mais absurdo e menos sóbrio que o longa original. Ainda assim, há um problema central que atravessa a experiência: o desconforto visual causado pela tentativa de fazer Isabelle Fuhrman parecer, novamente, uma criança. A atriz, que marcou o primeiro filme ainda muito jovem, foi convocada para interpretar a mesma personagem em uma prequela, ou seja, em uma história situada antes dos acontecimentos de 2009.


A contradição aparece na imagem. Por mais que a equipe recorra a maquiagem, figurino, enquadramentos e truques de escala, o rosto, o olhar, os gestos e a presença corporal da atriz adulta interferem na ilusão. O terror psicológico, que no primeiro filme era construído pelo clima, pelo mistério e pela dúvida, passa a dividir espaço com um incômodo visual constante. O público já não observa apenas Esther. Observa também o esforço técnico para convencer a audiência de que aquela aparência infantil ainda pode ser sustentada.


Para preservar essa ilusão, a produção recorreu a soluções práticas de filmagem. O diretor William Brent Bell optou por uma estratégia baseada em perspectiva forçada, atores mais altos, plataformas, dublês infantis, maquiagem, figurino e ajustes pontuais de imagem. A escolha é interessante do ponto de vista técnico, pois evita depender inteiramente do rejuvenescimento digital, mas também expõe o limite do artifício quando o espectador passa a prestar mais atenção no truque do que na cena.


As plataformas usadas por parte do elenco, os enquadramentos calculados, a presença de dublês mirins em determinados planos e a manipulação dos espaços compõem uma engenharia visual permanente. O problema é que o cinema também se sustenta nos detalhes. Quando as proporções parecem deslocadas, o cérebro percebe. O resultado é uma experiência em que a tensão narrativa perde força porque o olhar do público se desvia da ameaça de Esther para a tentativa de entender como a personagem está sendo construída em cena.


Foram utilizadas solas de até 30 centímetros | Crédito da foto: X (antigo Twitter)


No filme de 2009, o figurino de Esther, com vestidos de inspiração antiga, fitas no pescoço e uma aparência cuidadosamente deslocada, funcionava como dispositivo narrativo. A roupa ajudava a isolá-la socialmente, reforçava sua estranheza e criava uma imagem infantil atravessada por algo fora do lugar. Já na sequência de 2022, esse mesmo figurino parece operar também como uma tentativa de preservar artificialmente a imagem da personagem. As golas altas e as fitas deixam de funcionar apenas como traços de estilo e passam a participar da própria engenharia visual que tenta conter os sinais do tempo.


É preciso considerar, ainda, o peso do marketing da nostalgia no jornalismo de entretenimento. A volta de Fuhrman pode ser lida como uma aposta direta na memória afetiva dos fãs. O rosto conhecido traz reconhecimento imediato, produz curiosidade e facilita a divulgação. Porém, essa mesma escolha se torna uma amarra criativa. Com uma nova atriz, a franquia poderia explorar outras possibilidades para Esther, sem depender tanto de sapatos de plataforma, ângulos forçados e truques de proporção. Ao insistir no retorno da intérprete original, a indústria escolhe a identificação imediata, mesmo quando ela passa a comprometer a cronologia visual da história.


A questão, aqui, é até que ponto a conveniência comercial de manter um rosto conhecido compensa a perda de coerência visual e narrativa. O primeiro filme permitia leituras sobre luto materno, adoção, desconfiança e descrédito dentro da própria família. Kate, personagem de Vera Farmiga, percebe sinais de perigo, tenta alertar os outros e passa a ser tratada como instável, em um processo de gaslighting que intensifica a angústia da narrativa. Em "A Origem", esse drama humano perde espaço para uma lógica mais próxima do artifício e da surpresa calculada.


O anúncio de um terceiro filme reforça essa percepção. Com Isabelle Fuhrman prevista para retornar ao papel de Esther, a franquia parece apostar novamente no mesmo impasse: sustentar uma personagem de aparência infantil por meio de uma atriz adulta, agora ainda mais distante da imagem que marcou o primeiro longa. Se em "A Origem" a suspensão da descrença já operava no limite, uma nova sequência corre o risco de transformar Esther menos em ameaça psicológica e mais em curiosidade técnica.


Ao se recusar a escalar uma nova atriz ou a aceitar que o ciclo de Esther poderia ter terminado com força em 2009, a indústria desloca o personagem para outro território. O que antes funcionava como suspense de alto impacto passa a flertar com um tipo de estranhamento involuntário. Esther deixa de assustar somente pelo que faz e passa a chamar atenção pelo esforço necessário para que continue existindo na tela.


A comparação entre as duas obras também aponta uma mudança de tom. O primeiro filme trabalhava o luto, a fragilidade de uma família em reconstrução e a sensação de que uma mulher lúcida estava sendo desacreditada dentro da própria casa. Havia tensão emocional, silêncio, desconfiança e um medo que crescia aos poucos. Já as sequências parecem se divertir mais com o absurdo, trocando parte do drama humano por uma sucessão de viradas que podem entreter no momento, mas esvaziam a personagem a longo prazo.


A Esther de 2009 era assustadora porque parecia possível. A Esther atual depende cada vez mais de uma engenharia visual que transforma a personagem em curiosidade técnica. O problema não está apenas em Fuhrman ter crescido, algo natural e inevitável, mas na tentativa da franquia de fingir que o tempo pode ser neutralizado pela câmera. Quando a técnica passa a ocupar o centro da experiência, a narrativa perde parte de sua força.


Concluir essa análise exige reconhecer que algumas histórias são poderosas justamente porque têm um fim definido. Ressuscitá-las por meio de truques de perspectiva, plataformas e enquadramentos calculados pode diminuir o impacto daquilo que um dia funcionou tão bem. O cinema é uma arte visual, e quando a imagem entra em conflito com a percepção básica do espectador, a história precisa trabalhar muito mais para manter sua credibilidade.


"A Órfã" permanecerá como um dos momentos lembrados do suspense deste século, especialmente, pela força de sua virada final e pela construção de Esther como figura ambígua, fria e perturbadora. Suas sequências, porém, tendem a ser vistas como exemplos de como o marketing pode atropelar a coerência estética de uma obra. Ao insistir em um terceiro capítulo, a franquia parece testar a paciência de um público que já percebeu o essencial: nem todo segredo precisa ser recontado. Às vezes, a força de uma personagem está justamente no ponto em que sua história termina.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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