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A dificuldade da manutenção de esportes coadjuvantes no Brasil

Como a polarização esportiva expõe as diferenças de infraestrutura entre os esportes principais e “secundários”


A infraestrutura é fator central para o problema histórico envolvendo esportes coadjuvantes dentro do país | Crédito da imagem: O GLOBO


Por André Felipe | Agência Abre Aspas


O Brasil tem um longo histórico envolvendo esportes, especialmente os que se jogam com a bola no pé; com alguns dos maiores jogadores da história de modalidades como o futebol, tanto masculino quanto feminino, além do futsal e muitos outros. A cultura brasileira sempre remete ao futebol e o futebol sempre remete a cultura brasileira.


No “país do futebol” é quase proibido não ser amante do esporte bretão, o que, além de torná-lo o “carro chefe” de muitas emissoras, pode prejudicar a manutenção e criação de novas culturas esportivas. Principalmente em esportes que pouco tem a ver com o estilo de consumo brasileiro, como basquete e handebol.


Segundo pesquisa realizada pelo UOL, o futebol é de longe o esporte com maior audiência no Brasil, compreendendo 78% dos entrevistados pelo site, tendo o vôlei de quadra e a Fórmula 1 completando o pódio, com 35% e 28%, respectivamente. Quando o assunto são esportes praticados, a margem cai, mas ainda escancara a diferença. Segundo pesquisa do IBGE,o futebol mantém seu reinado, possuindo 30 milhões de praticantes, tendo o vôlei em segundo lugar com 15 milhões e o tênis de mesa com 12 milhões.


Essas pesquisas destacam diferenças e preferências do brasileiro em relação a prática e o entretenimento. Os motivos são diversos, mas escancaram um fato: o preconceito brasileiro em relação a outras modalidades.


O professor de educação física André Dino, apaixonado por basquete desde criança e professor da modalidade a mais de 10 anos, conta a dificuldade em atrair novos jovens e como esse é um dos grandes empecilhos para a popularidade de esportes como o basquete no Brasil. Mesmo problema levantado pelo técnico de Handebol, Ronaldo Hernandez, docente da modalidade a mais de 3 anos. Ambos os relatos são perspectivas de profissionais do centro-oeste do Paraná, da pequena cidade de Laranjeiras do Sul, com 32 mil habitantes.


O handebol é a modalidade que recebe maior investimento na cidade pela fácil adaptação de quadras de futsal para o seu exercício. Enquanto isso, o basquete conta com duas quadras, as quais se encontram em condições precárias e sem manutenção há anos. Pintura desgastada pelo tempo, assoalhos ásperos por serem feitos apenas com cimento - material não adequado para a prática - e ausência de recursos básicos previstos nas regras, como cestas tortas, de alturas diferentes e com a ausência da rede em seus aros, impactam diretamente no rendimento e engajamento dos atletas.


André Dino cita a precariedade estrutural e levanta outro ponto importante para a atração e captação de recursos e jovens atletas, a identificação. “Se a criança vai em qualquer quadra com menos de cinco anos e chutar uma bola que entre no gol, o pai, a mãe, o irmão, o amigo, todos comemoram e fazem com que a criança se identifique com aquilo. No basquete, as crianças se frustram porque não tem força pra fazer uma cesta, por não ter acesso a um aro mais baixo. Que na verdade é algo simples de resolver”.


Problemas como placares e cestas baixas geram situações constrangedoras aos atletas e afetam a procura pelo esporte em todas as instâncias, do amador ao profissional, diminuindo questões como audiência e patrocínio, tornando-se outra dificuldade a ser superada.


VISIBILIDADE


Tão importante quanto a inclusão e identificação, a presença de espectadores e a transmissão desses esportes é vital na inclusão e disseminação dele. Em cidades como Laranjeiras do Sul, o número de espectadores em eventos presenciais é potencializada pelas ‘microcidades’ ao redor, como Porto Barreiro, Nova Laranjeiras, Rio Bonito do Iguaçu e muitas outras, mas, ainda assim, a audiência é menor do que o esperado. Em eventos que não sejam sobre futebol, vôlei ou até mesmo artes marciais, a audiência é marcada somente por atletas, amigos e famíliares.


O professor de handebol, Ronaldo, trata isso como comum devido ao tamanho das cidades e aos motivos já citados anteriormente, mas cita o quão frustrante para jovens é treinar e jogar para ninguém:

“Muitas vezes, tanto eu quanto os atletas gastamos muita energia para trazer pessoas aos jogos e acabamos jogando para quase ninguém, mesmo com patrocinadores, posts para divulgação e anúncios. Isso pode se transformar em frustração para algumas crianças novas no esporte, pois ele ainda não é tão atrativo quanto outros”.

Dino também cita a dificuldade que isso trás para a modalidade, fazendo o esporte ser pouco atrativo, mas destaca a importância das transmissões televisivas, relembrando que seu amor pelo basquete surge justamente quando criança, pela televisão.


Transmissões do jogo tipicamente americano estão constantemente ocorrendo em nossa mídia, com veículos como Band, Prime Vídeo e ESPN dividindo os direitos de exibição. A modalidade atrai milhões de fãs todos os anos, especialmente no Brasil, onde tem índices de crescimento notório, atingindo seu auge no começo da temporada 25/26, com 57 milhões de espectadores.

Apesar disso, o basquete nacional, mesmo em crescente, fica escanteado, escorado em canais de Youtube de pouca visibilidade e em streamings inacessíveis para muitos brasileiros, inviabilizando-o para diversas famílias que, mesmo apaixonadas, não conseguem acompanhá-lo.


Se tratando de handebol, o cenário muda. Mesmo em alta, as transmissões da Liga Nacional de Handebol são feitas através do canal do Youtube da Confederação, atingindo pequenos públicos, resultando em uma dificuldade de encontrar investidores, que usam a audiência como chave para tal aporte financeiro.


INVESTIMENTO E PATROCÍNIO


Falando sobre patrocinadores e investimentos, a discrepância de parâmetros entre os esportes fica ainda mais evidente. No futebol, por exemplo, o maior patrocinador do Campeonato Brasileiro é a casa de apostas Betano, pagando entre 70 e 80 milhões de reais para ser a patrocinadora master da competição. Já no Novo Basquete Brasil (NBB) e na Liga Nacional de Handebol, a CAIXA aparece como principal apoiadora, investindo cerca de 12 milhões de reais por ano no basquete e uma parcela sem valor aproximado para o handebol, através do COB (Comitê Olímpico do Brasil); sem um grande patrocinador para a Liga Nacional, apenas com apoios pontuais.


Além disso, a ausência de prêmios em dinheiro para os campeões de seus respectivos campeonatos afeta diretamente o meio, que se desdobra atrás de alternativas financeiras para manter a sustentabilidade dos campeonatos, resultando no encerramento de atividades de diversos times. Um exemplo disso é o São Paulo, em maio de 2025, e a construção de dinastias de times bem estruturados que destoam até demais do restante, como no próprio NBB, com o SESI Franca sendo o atual tetracampeão consecutivo da competição, com 5 finais em 6 temporadas.


PROJEÇÕES


Mesmo em meio a dificuldade, as projeções ainda são vistas como positivas. No handebol, por exemplo, Ronaldo tem uma perspectiva otimista:

“Comparado ao handebol de antigamente, a nova geração teve muito mais interesse pelo esporte, até mesmo em cidades como Laranjeiras, muito por conta das olimpíadas e paralimpíadas de 2024 e pela boa administração do novo presidente da confederação, atingindo bons resultados em questão de divulgação em mídias sociais e em captação de patrocinadores”.

Já no basquete, André também vê um futuro promissor e uma modalidade apaixonante, mas que precisa necessariamente de atenção para se desenvolver:

“Bom, eu tenho uma filha de 10 anos que se encantou pelo basquete desde cedo e não foi por insistência minha, mas provavelmente foi influência por me ver nesse meio. E, como falei, a base é o futuro. É um trabalho de formiguinha, mas se tiver o investimento em infraestrutura e a aproximação das crianças com a modalidade, com grandes profissionais que temos na área, eu me obrigo a acreditar que é um futuro muito promissor. Eu trabalho pra isso, e acredito no encanto do basquete”.

Felizmente, a era digital potencializa muito isso, com ambas as redes das confederações de basquete e handebol atingindo milhares de amantes. Com um belo trabalho de toda uma comunidade de fãs desses esportes para a disseminação de mais informações e aumento da popularidade de clubes, atletas e competições, se cumpre a cartilha de uma das principais causas para que o esporte foi criado, popularizado e é tão aclamado por tantos: Unir as pessoas em prol do mesmo objetivo.

1 comentário


André, o seu texto me fez olhar para os esportes coadjuvantes com mais atenção. A reportagem mostra bem como infraestrutura, visibilidade e investimento atravessam a permanência dessas modalidades no Brasil. Gostei, especialmente, dos relatos dos professores, porque eles aproximam o tema da realidade local e dão força humana à discussão.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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